Amenidades - tratando de assuntos quaisquer

Amenidades
Vez ou outra, venho à Saraiva no Shopping Iguatemi para sentar, ler, pensar, tomar um bom café, e ordenar meus pensamentos. Gosto do sossego e da atmosfera proporcionadas pela cafeteria daqui, a Feito A Grão. O café é caro, mas além do inigualável sabor, oferece, não raro, alguns pratos para o almoço e jantar, além de tortas doces e salgadas de sabores variados e bastante apreciados. Os preços não são convidativos, mas é o preço de um ambiente salutar.
Costumeiramente, vejo nas outras mesas, professores oferecendo aulas particulares, treinamentos de vendedores, padres falando dos cursos de noivas nas suas igrejas, estudantes, empresários, políticos e um sem-número de pessoas em suas mais variadas funções, aproveitando o momento como eu. Uns o fazem ganhando algum trocado, outros apenas curtem o momento de parada-para-o-café e deixam a vida correr sem pressa nesses momentos de ludicidade. Particularmente, como disse, gosto de ler revistas e livros. Aproveito as vezes para colocar notebook e smartphone em dia. Não raro, trago avaliações de meus alunos, faço planejamento escolar, preparo apostilas e apresentações em Power point, envio mensagens por e-mail aos meus pupilos, ou aguardo o momento anterior ao inicio da sessão no cinema.
Aqui é um lugar onde pressa, não corresponde ao mais inteligente dos ingredientes, sem dúvida.
Sempre desejei ser um homem das letras. Um pensador, se assim o preferirem chamar. Mas negros filhos de pedreiros, nesse país, precisam trabalhar, e trabalhar duro. Nada contra o trabalho, mas é óbvio que ele tira o melhor da vida do nosso alcance. Gosto de ler, pensar sobre o lido, debater, permitir-me conhecer novas ideias, absorver as que passarem por meu julgamento, abolir por meio de argumentos firmes e bem alicerçados aqueles que me parecerem inadequados. Nasci para a paz, não para a guerra venha ela coma cara que vier. Sedutora como for.
Adoro sentar com meus filhos. Não perco oportunidade de fazê-lo. Gosto de rir com eles, de vê-los sentados em meu colo. Gosto quando eles me convidam para participar de suas brincadeiras. Gosto de vê-los bem, e me permito dividir o tempo deles comigo. Sei que eles me amam porque suas carinhas, e suas atitudes, quando chego em casa, ou quando levantam pela manhã, assim o denuncia. Ambos me convidam para sentar à mesa e fazer a refeição. Em alguns casos, quando comemos fora de casa, é comum que disputem o colo, para que possam fazer a sua própria refeição pela manhã. Quando Filipe acorda, ele se encaminha diretamente para mim: “bom dia, papai.” Como me sinto importante! Isso faz a vida valer a pena.
Aliás, que mais pode um homem de bem desejar, senão uma boa comida, uma companhia agradável, um trabalho que o faça sentir-se útil e produtivo, e um pouco de conforto para dividir com aqueles que amamos? Sinceramente, não pedi muito mais que isso para Deus!
Aqui, sentado, costumo ficar pensando em coisas ligadas à política, religião, sentimentos, futuro, passado, amores... e se pensar no presente, acabo me deprimindo.
Se eu fosse um pouco mais organizado e um pouco menos preguiçoso, poderia escrever mais no blog. Afinal, é para isso que ele existe. Para que sejam comunicadas nossas idéias. Mas confesso que não organizo bem minhas idéias para escrevê-las. Queria ser blogueiro e ganhar reais às pencas. Mas até nisso sou pobre.
Falando de amenidades, quando teremos políticos que trabalhem para o bem comum, em lugar de trabalhar em favor de si mesmos e dos seus coligados? Precisamos de cidadãos.
Na Grécia antiga, só poderia ter o título de cidadão aqueles que agregassem três características: teriam de ser homens, livres e nascidos na própria terra. Mulheres, escravos e estrangeiros estavam destituídos do grupo de cidadãos. E como tais não podiam participar da vida política. Não podiam debater em público sobre os problemas comuns a todos. Simplesmente não podiam participar. As exigências de hoje não são menores. Agregamos uma, entretanto, valiosíssima: precisamos ser educados. Falo de formação escolar. Estudo. Conhecimento formal. Saber nosso lugar no mundo, na sociedade em que vivemos, como podemos contribuir para a sua perpetuação, ser ordeiros e uteis uns aos outros.
Duas idéias me perseguem esses últimos dias: a de que uma sociedade de ovelhas mudas sempre temerão os lobos. E estas sociedades servem apenas para entregar sua preciosa lã ao tosquiador, sua carne ao lobo, e seus balidos ao vento. Nessa sociedade, as intenções do pastor nunca são as mesmas da ovelha, mesmo quando as alimenta, dá-lhes remédio, e um aprisco aparentemente seguro. Ao final, o objetivo sempre é garantir os interesses do tosquiador: lã para aquecê-lo e gordura para sacia-lo e nada mais.
Outra idéia que me fustiga o pensamento é a de que de uma forma ou de outra todos acham que a ditadura é a solução para o Brasil. Para uns, a ditadura de esquerda, amparada pelos ideais de Fidel, Stalin, e recentemente Cháves é o que precisamos. Uma ditadura de esquerda, onde o governo centraliza as ações, tomando dos “capitalistas” (aqueles que trabalham duro para ganhar seu pão diário), para cedê-las ao proletário (aqueles que apenas recebem bolsas de todo tipo, nada produzindo e portanto não sabendo quanto custa ganha-las). Há quem de outra parte deseje uma ditadura de direita, onde o pode é exercido numa linha duríssima, com toda sorte de exercícios de sufocamento da democracia. Em qualquer caso, pergunto-me em que uma ditadura de esquerda é melhor que uma de direita. Não sou estudioso desses assuntos, e falo como leigo que sou. Mas acho que ditadura, por ditadura, precisamos mesmo é de democracia. E ela exige participação popular ativa. Exige tomada de posição. Ação clara e efetiva visando o bem comum. Sentar-se em frente à televisão, acompanhar os fatos apresentados pela mídia apenas não nos torna cidadãos. Sair de casa de 2 em dois anos e eleger homens e mulheres de cujo passado desconhecemos, e que provavelmente não se alinham com os interesses da coletividade; também não é democracia.
Esse modelo que adotamos onde “escolhemos” alguém para fazer o que julgamos deve ser feito, mas nada fazemos para acompanhar e tornar efetivo nossos interesses não cabe mais hoje em dia. Precisamos participar do cotidiano da nação diariamente. Pagando nossos impostos sim, mas exigindo que sejam empregados onde devem ser empregados: na nossa educação, na nossa saúde, segurança, transporte, e toda medida que torne nossa vida melhor, mais confortável e mais produtiva.
Li em algum lugar  que os escravos negros eram homens e mulheres que se tornaram caros para seus donos. Isso porque o custo de manter um escravo era alto, e eles eram pouco produtivos. Por motivos óbvios: trabalhavam longas horas, em condições desumanas, sem qualquer motivação para a produção. Segundo o que li, o escravo era, portanto mais caro que nós, homens livres.
Vejo com grande preocupação, as decisões que a justiça do trabalho vem tomando nos últimos anos. O patrão não é obrigado a pagar as URV’S, os aumentos salariais e as condições de trabalho são ruins, o investimento na formação e aperfeiçoamento do profissional é baixa, os instrumentos de trabalho são escassos, pouco produtivos e não raro de difícil manuseio. O profissional não consegue se manter, melhorar sua qualificação, se alinhar com os interesses da empresa. Seus salários não permitem que possam alimentar suas famílias, provê-las do que necessitam. Mesmo quando a justiça obriga por força de lei o patrão cumprir com determinadas obrigações, ainda assim, ela não impõe sansões para seus descumprimento.
Apesar disso, a justiça se movimenta fortemente contra o trabalhador quando este se levanta contra essa condição numa greve.
Somos mesmo livres? Acredito que a senzala e suas relações foram reinventadas e surgem com caras novas. Seguramente feitores e pelourinhos hoje são desnecessários, mas temos como feitores os sindicalistas, trabalhando ao lado dos patrões e salários de fome que nos fustigam a carne. Como disse um certo pensador brasileiro “pagar salário de fome a um trabalhador é reescravizar o homem”
E é exatamente assim que me sinto. Sou professor por opção. Formei-me para tal. Não consigo pensar que para ter uma qualidade de vida melhor tenho de deixar de sê-lo, e passar a outras opções de vida. Um pequeno comércio, quase clandestino, que sonega impostos, propaga problemas sociais... sei de colegas que deixaram as salas de aula e hoje vivem muito bem vendendo produtos, fazendo sabão, bolo, festas... mas a sociedade perdeu grandes profissionais.
Há quem julgue que professores reclamam demais. E reclamam mesmo! Há quem tente minimizar suas mazelas, e julgue que os salários pagos a professores são baixos, porque brasileiros ganham mal, independente do trabalho que exerçam.
Poucos profissionais trabalham o número de horas que trabalham os professores. Sejam horas em casa, sejam horas nos locais de trabalho. Passamos grande número de horas entre uma escola e outra, entre reuniões e outras, entre provas. As vezes corrigindo, as vezes elaborando. Gastamos pouco tempo preparando aulas,lendo, ouvindo música, aperfeiçoando nossos conhecimentos, conversando com nossos filhos, aprendendo novas mídias, instrumentalizando-se, sejam instrumentos pedagógicos reais ou subjetivos.
Meus alunos frequentemente me perguntam porque não usamos o laboratório da escola. A pergunta é válida e demonstra a necessidade de usar os espaços que temos, e melhorar nossa capacidade de aprendizado pela tomada de ferramentas cognitivas apropriadas. Devolvo a pergunta para eles com o seguinte texto: e quem vai preparar e testar o experimento? Quem lavar os frascos e guardar os reagentes? Quem preparar o laboratório? Numa escola do porte da escola onde trabalho, ter um único laboratório, mal equipado, com reagentes velhos, e sem aparelhos e vidraria apropriados, é uma temeridade. Para preparar o experimento é preciso antes de aplica-lo testar. Em que momento entre uma escola e outra, provas para corrigir, aplicar e digitar, o farei? A coisa, não é tão simples quanto parece.  Imagino que não seja diferente para outros professores em outras áreas.
Precisamos de tempo para elaborar nossas aulas com cuidado, e para investir em nossa capacitação pessoal. Tempo é dinheiro. E sem dinheiro, não podemos fazer cursos, adquirir capacitação, melhorar as aulas. Simplesmente não conseguimos fazer o que desejamos e julgamos óbvio. Precisamos de tempo para ganhar dinheiro e pagar nossas contas.
Professores são julgados em sua competência pela roupa que veste, pela casa onde mora e pelo carro que usa. As vezes eu não tenho tempo sequer para sair e cortar o cabelo, quanto mais comprar roupas. Priorizar meus filhos e família não é algo fácil, mas optei por eles e por
mim mesmo. Todo mês, quando entro no vermelho percebo como essa opção é cara e difícil de se manter.

Volto a afirmar que, qualquer profissional motivado produz bem. E nenhuma motivação substitui salário na conta bancária. E mais: país algum que não invista em educação poderá minorar as mazelas de sua gente.  Pagar salários decentes aos professores fará o país melhor e mais eficiente. Seguramente um país melhor para todos.

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