O preconceito nosso de cada dia, hoje.


Todos somos, em algum momento, preconceituosos. Não se admire de minha afirmação! Se ela o deixa chocado, na verdade, é porque você se reconhece como tal.
Nesse exato momento estou na Livraria Saraiva do shopping Iguatemi, e na mesa ao lado,ouço uma mulher, de alguma idade afirmando para a amiga “todo homem é igual!”, e diz para o amigo “trate toda mulher como princesa!”. “Vocês só pensam em sexo”...
Vindo para cá, hoje pela manhã, dei carona a minha esposa que está numa reunião no Fiesta Hotel da Bahia.
Estávamos passando pela via expressa, quando um veículo, guiado por uma senhora,  passou à frente do carro que eu guiava. A senhora em questão, guiava o carro em velocidade muito abaixo do que poderia, na circunstância em que estava, e, com isso causava uma grande impaciência em todos os motoristas atrás dela, inclusive eu. Pior, não dava espaço para ser ultrapassada. Não fosse uma placa, advertindo para que a velocidade não ultrapassasse 40 km/h, em razão de obras no local, eu iria começar a buzinar e pedir passagem. Exteriorizando esse desejo, ouço de minha esposa a frase preconceituosa “dirigir está no mundo dos homens. Nós (mulheres), por sermos gente, achamos que podemos participar desse mundo, mas ficamos na maioria das vezes como essa senhora: nos sentindo acanhadas e pressionadas. Ela não sabe dirigir”.
Desde quando, o ato de dirigir é “coisa de macho”? Aliás, há frases que a mim acabam traduzindo nossa ignorância e arrogância sobre o outro. O fato de uma pessoa ser deste ou daquele gênero, por si apenas, não determina aptidão para isto ou para aquilo. Sou homem, e em minha casa, lavo louça, cozinho, arrumo a casa, lavo banheiro, arrumo estantes, coloco roupa no varal, e tiro de lá também. Dou banho e troco de roupa nos meus filhos, assim como, vez ou outra, lhes troco as fraudas. Quando ao cuidado com eles, julgo-me tão apto quanto minha esposa. Exceto numa delas estou em desvantagem em relação a ela: não tenho como amamenta-los! Mas fora isso...
Digo o mesmo em relação a qualquer outra coisa. O fato de um ser humano ser mulher, não o incapacita para cargos de comando, gerência, ou semelhante.
Acho de extremos mal gosto e de pouca inteligência que pessoas sejam avaliadas em suas ações usando como critério o gênero.
Se estivesse na mesa ao lado, eu perguntaria para a senhora em questão, se toda mulher é, de fato, uma dama. E se mesmo aquelas que o são, em algum momento, não agem como se não fossem. De forma semelhante, porque “todo homem só pensa em sexo?” mulheres não o fazem também?
Esse pensamento me deixa preocupado. Sendo eu um homem, passo a ter a obrigação, segundo esse padrão vigente, de, “comer”, ou ao menos tentar, toda mulher que se mostrar interessada em mim. Imagine a cena, surreal, onde eu entro no meu local de trabalho, e, uma colega minha, de forma insinuante e persuasiva, insiste em ter uma conjunção carnal comigo... se eu me recusar,passo a ser alvo de chacotas e críticas (ele é gay? Ele é evangélico? Ele não gosta  de mulher?). Como se eu, pelo simples fato de ter vindo homem e ser heterossexual não posso ter o direito de dizer “não” para uma mulher, por mais atraente e sedutora que ela seja...
De forma semelhante, segundo o raciocínio da senhora na mesa ao lado, uma mulher que desejar um homem, é tudo, menos uma dama.
É esse raciocínio que tem feito milhares de homens e mulheres infelizes em seus relacionamentos a dois. Mulheres julgam que seus companheiros sempre estarão a um passo de cometer uma traição, ou pior, já nem esse passo há para separa-los de tal. E de outro lado, uma mulher que procura seu marido será tida como vulgar, “baixa”, “puta”, ou qualquer coisa, porque se convencionou, sabe Deus onde, que sexo é coisa de homem e não de mulher!
Pára com isso!
De forma semelhante, os preconceitos raciais que temos estão tão impregnados que nem notamos. Hoje pela manhã, eu lembrava quando há uns anos atrás,eu fui professor numa escola na cidade de Ilhéus, na Cooperativa Educacional de Ilhéus, e lá, ao adentrar numa sala de aula, me deparo com uma frase escrita com giz sobre a mesa: “negro é lixo! Quando não caga na entrada, o faz na saída”. Li a frase e imediatamente chamei a diretora. Esta, adentrando a sala, foi informada por mim sobre o ocorrido. Ela me pede o apagador, apaga o tampo da mesa, e, diz “dê sua aula!”. Deu às costas e saiu. Saindo da aula, que foi bem difícil de ser dada, já indo para casa, recebi um chamado para me dirigir à sala dela. Indo a sala, fui advertido que minha conduta, ajudava a reforçar as ações dos alunos. Ou seja, a vítima é culpada de ser vítima!
Nós agimos assim! Lembro que minha mãe dizia para mim quando eu era criança, para ficar longe de lugares onde estivesse acontecendo algum problema. Por exemplo: se roubassem o material de algum colega, segundo minha mãe, eu deveria me manter longe do local, porque estando perto, poderia ser confundido com o autor do dito crime. Porquê o seria? O quê, em mim, poderia despertar a atenção e, por isso, ser o possível culpado? Em nossa sociedade, o simples fato de ser negro, já torna culpado de alguma coisa. Por isso nos admiramos tanto com negros que ocupam cargos, negros que dirigem carros bacanas, negros que apresentam desempenho de excelência nas academias... porque essas coisas, em nossas mentes e corações, são destinados à negros.
Lembro-me, nesse momento, de uma piada, bem racista, que partia de uma pergunta igualmente racista. A pergunta é: “quem parece mais com um macaco: um negro ou um branco?” A resposta: “o branco, pois o negro já um macaco”. Há outras: “negro só anda de carro se conduzidos em viatura policial”, “A loira ficou feliz por levar 6 meses para montar o quebra-cabeças de 4 peças, porque na caixa estava escrito de 2 a 3 anos”. E somos assim, racistas, sem nos darmos conta de o sermos. Os brancos desse país têm produzido rombos na previdência e nos cofres da nação. São esses rombos e desvios que ou de uma forma ou de outra acabam por fazer com que a saúde, a segurança, a educação, a mobilidade urbana, os salários do funcionalismo, entre outros, estejam como estão. Ou seja: esses homens brancos, com seus colarinhos igualmente brancos, empobrecem o povo. Mas negros que roubam galinhas recebem todos os rigores da lei contra eles.
Como professor,percebo todo dia falas igualmente preconceituosas em sala de aula, tanto entre meus alunos, quanto entre meus colegas. Não raro, paro minha aula de química para tratar de temas dessa natureza.
Ano passado,lembro de um ato de preconceito contra uma de minhas alunas, feito por um colega de sala dela, por ela ser gorda. Embora seja uma jovem com grande beleza, o ser gorda, tornou-a alvo do preconceito. Eu então aproveitando o momento afirmei. “mulheres magras são ótimas para serem vestidas. Qualquer roupa cai bem nelas. Já as gordas ficam ótimas quando despidas.” A aluna então externou que já não suportava mais o bulling que sofria entre os colegas por ser gorda. Então eu disse “pena para esses bobos. Nunca terão o privilégio de saber como é bom quando uma gorda enche a cama.” Houve quem julgasse inadequada minha fala, mas não achou impertinente o preconceito contra o suposto excesso de peso da aluna.
E, como os padrões de beleza mudam ao sabor do tempo, ora o ser gordo, ora o ser magro, ser algo que não está no padrão socialmente aceito num determinado momento,  torna a vida desses “marginais” um inferno.
Não sou especialista no assunto, mas acredito, por força de uma observação pessoal, que os nossos preconceitos são construídos sob o alicerce dos nossos medos.
Temos medo de ser agredidos. Como, nesse país, a parcela de pobreza está, social e economicamente, relacionada com os negros e miscigenados, passamos a achar que, todo negro e todo miscigenado, é um potencial marginal e por isso melhor é manter-se distante.
Como disse falo como observador, não como especialista no assunto. Portanto não posso afirmar com validade científica o que disse.
De forma idêntica, as pessoas julgam que, porque alguém é evangélico, provavelmente, é ignorante e nesse caso, desprovido de formação acadêmica adequada. Doutra forma, há quem acredite que o fato de alguém se tornar um estudante aplicado, e ter muitos títulos acadêmicos, o torna um ateu.
É incongruente ser acadêmico e ser religioso!
Lembro quando criança, que volta e meia,aparecia na igreja da qual era membro, Pessoas que haviam estado do outro lado da chamada”Cortina de ferro”. E, nos países do bloco comunista, as religiões, todas, eram muito controladas. Por um motivo simples. Nos países do bloco comunista havia a noção de que os bens do cidadão, assim como suas crenças pessoais devem ser regidas pelo Estado, e não por uma entidade superior, seja ela quem for. Soube do testemunho de vários perseguidos por serem religiosos. E, não raro, ouvi que o ateísmo está diretamente relacionado ao comunismo. A perseguição católica aos protestantes, mouros e judeus assassinou centenas de pessoas. Estas, uma vez acusadas, fosse qual fosse a sua defesa, iriam morrer. Não raro, depois de muita tortura e dor. A mesma igreja sustentou a escravidão aos negros e índios. Apesar disso, hoje se levanta como protetora através de suas pastorais e afirma que a maldade do mundo está relacionada a incredulidade de alguns. A história demonstra que, tanto crentes quanto ateus, quando usaram do poder,puderam fazer grandes coisas: tanto boas quanto más!
Sabe-se dos campos de concentração usados na segunda guerra pelos nazistas. Poucos falam dos campos de concentração criados por governos alinhados com os americanos. Todos igualmente desumanos.
Li há poucos dias, que os Gregos, a despeito da democracia e da Filosofia, eram Bastante cruéis quando em guerra. Ao sitiarem uma cidade davam um ultimato: se a cidade se rendesse, mulheres e crianças seriam poupadas. Isso equivale dizer que, todos os homens, independente da idade, seriam mortos e as mulheres independentes da idade, escravizadas. Se não aceitassem a rendição, teriam a cidade tomada e todos seriam mortos, depois de torturados os seus governantes. O berço da sabedoria ocidental é cravejado de histórias e personagens por demais cruéis.
Todo padre é pedófilo? Todo pastor é um enganador? Todo negro é ladrão? Toda loira é burra? Toda negra é feia? Mulher só poder puta ou santa? Todo homem é tarado?
Sei a resposta da maioria dos que lerem esse meu pensamento. Mas fico me perguntando se, em algum momento, apesar da firme convicção de que somos muito esclarecidos e desprovidos dessas amarras, não agimos com o devido preconceito. Não raro, alfinetamos o outro com uma tirada racista e preconceituosa. Seja por causa do gênero, da cor da pele, do grupo étnico, do diploma, da aparência, e qualquer coisa que possa ser usado para reforçar nossa superioridade (suposta) diante do outro.
Volto a afirmar, aqui não é um estudioso no assunto, menos ainda um especialista nessas questões. Mas a mim parece que as causas do preconceito, seja ele qual for, estão relacionadas, como disse, com os nossos medos, com nossa incapacidade de aceitar o outro, e com o desconhecimento que temos.
De qualquer sorte, abraço a idéia de que, mesmo eu, sendo preconceituoso ocasionalmente, posso e preciso melhorar. Aceito que, embora seja algo humano, o preconceito é desnecessário. E que quanto mais abrimos nossa mente e nosso coração ao outro, melhor o aceitamos e a nós mesmos. E que provavelmente nunca estaremos totalmente isentos de algum tipo de preconceito ou forma de exclusão. O que não quer dizer que não devamos perseguir essa meta.


Postagens mais visitadas deste blog

Professora gostosa foi expulsa da escola por deixar alunos excitados.