Privilégio magro – O que é e como reconhecê-lo? | Bule Voador


Privilégio magro – O que é e como reconhecê-lo?

gordofobia
Publicações recentes em revistas que glorificavam corpos tidos como magros ou incentivavam a prática de dietas restritivas, como até o jejum, incitaram um debate nas redes sociais e na sociedade sobre a ditadura do corpo, a beleza e a indústria da dieta e fitness. Muitas vezes estes debates passam do limite do questionamento e passam a criticar as próprias modelos ou mulheres. Isto, sem dúvida, é um reflexo da nossa sociedade misógina que culpa mulheres e enxerga seus corpos como propriedade pública.
professor universitário diz no twitter aos candidatos obesos à uma vaga de PhD que  se não tiveram a força de vontade para parar de comer carboidratos, não terão a força de  vontade para escrever uma tese
Professor universitário diz “caros aplicantes ao PhD obesos: se vocês não tiveram força de vontade para parar de comer carboidratos, não terão para fazer uma dissertação #verdade”
Apesar do corpo mostrado pela indústria da moda como “ideal” ser o biótipo natural de menos de 5% da população feminina nos Estados Unidos (de acordo com o Fundação Renfrew sobre Distúrbios Alimentares), algumas pessoas magras se sentem pessoalmente atacadas com este debate. Diante disso, faz-se necessário enfatizar que embora o machismo e a cultura da crítica ao corpo afete todas as mulheres, existem certos privilégios da “magreza”, ou opressões específicas que não são vivenciadas por pessoas em pesos e formas consideradas “ideais” ou “normais”.
Muitos relutam em enxergar a gordofobia como um problema social. Esta visão é fortemente embasada nos mitos reforçados no falso discurso da “saúde”, que serve como cortina para esconder o preconceito e combustível para alimentar o ódio. Enquanto governos em geral têm demonstrado uma tendência para criminalizar ou combater vários tipos de discriminação, estes mesmos governos incentivam a gordofobia utilizando-se deste discurso “médico”.
Roberto Justus chegou a afirmar diversas vezes que não contrataria uma pessoa obesa, dizendo que as considera “preguiçosas” ou falando que precisa “zelar pela imagem da empresa”. Instâncias do próprio governo brasileiro já chegaram a impedir concursados de assumir seu postos por serem obesos. As populares novelas mostram uma gordofobia machista escancarada diariamente, criando pouca indignação ou discussão entre seus telespectadores.
Pessoas vitimadas por esta discriminação, no trabalho, no governo e frequentemente por profissionais da saúde, raramente têm qualquer possibilidade de conseguir reparação ou resistência legal. A comunidade médica, que deveria estar mais preocupada com a saúde e o bem-estar dos seus pacientes, costuma ser a primeira fonte de reclamação das discriminações sofridas por pessoas obesas.

A gordofobia não só afeta o lado emocional e a saúde psicológica das pessoas que diariamente são alvos deste ódio (velado ou não), mas ela mata. Mata através dos distúrbios alimentares (anorexia, bulimia, compulsão), mata através de consequências e complicações de procedimentos, como a cirurgia bariátrica, através do uso de drogas e dietas restritivas e também pela humilhação de profissionais de saúde, que frequentemente ignoram sintomas atribuindo tudo à gordura (às vezes em situações de pura negligência), ou que humilham as pessoas de tal maneira que elas evitam buscar ajuda médica.Como reconhecer e começar a entender que nossa sociedade está perseguindo ativamente estas pessoas? Para isso, a já conhecida técnica de listagem de privilégios pode ser muito útil.
gordofobia
Pessoas cujo peso é considerado ideal têm o privilégio de comer ou comprar comida em público sem receber reações desagradáveis, comentários ou “sugestões”.Privilégios de pessoas consideradas em peso “ideal”:
  1. Ninguém assume que pessoas cujo peso seja considerado ideal sejam pouco saudáveis ou tenham maus hábitos só olhando para elas. Quando visitam um médico com alguma reclamação, geralmente pessoas com menos gordura passam por exames para um diagnóstico correto, sem que profissionais imediatamente assumam que o seu corpo é a causa de todos os seus problemas.
  2. Pessoas consideradas no peso ideal não recebem sugestões e conselhos recorrentes de familiares, amigos, colegas de trabalho e até estranhos sobre alimentação, dietas, cirurgias, medicamentos e programas.
  3. Ninguém presume que pessoas consideradas no peso ideal sejam preguiçosas ou não tenham autocontrole.
  4. Pessoas consideradas no peso ideal podem, de fato, serem preguiçosas, comerem mal e terem maus hábitos de saúde e dieta, sem que isso seja constantemente mencionado ou criticado.
  5. Algumas companhias aéreas em alguns países cobram mais de pessoas obesas. Alguns países cobram mais impostos. Alguns planos de saúde criam mais dificuldades, e cobram mais. Estes problemas não são enfrentados por pessoas consideradas no peso ideal.
  6. Pessoas consideradas no peso ideal podem comprar roupas da moda em qualquer loja, em qualquer lugar, sem ter que pagar preços exorbitantes por elas.
  7. Pessoas consideradas como tendo o peso ideal têm maiores chances de contratação e promoção no mercado de trabalho.
  8. O corpo das pessoas magras não é chamado de “epidemia”.
  9. A violência sexual e assédio em bares e clubes com pessoas de peso considerado normal não é normalmente “justificada” com a desculpa de “você deveria agradecer que alguém quer ficar com você”.
  10. Comediantes não fazem piadas sobre corpos considerados no peso ideal.
  11. Mulheres com peso considerado normal encontram corpos parecidos mostrados como “belos” nas artes, revistas, moda, em todas as esferas. Mulheres gordas só encontram na mídia e no cinema outras mulheres gordas desempenhando um papel degradante ou em função do seu próprio corpo (como “a amiga gorda” dos filmes e novelas), ou falando sobre seus corpos.
  12. Você pode passar um dia sem pensar no seu peso ou ouvir que precisa mudar seu corpo.
  13. Suas roupas são vendidas como roupas, chamadas simplesmente de roupas e não de linhas especiais como “plus size”.
  14. Pessoas cons
    ideradas magras não precisam pedir desculpas ou serem criticadas por comerem comidas calóricas ou ingerirem álcool e doces.
  15. Você nunca tem que ouvir que andar por aí e não odiar seu corpo é “dar um mau exemplo” para crianças, seus filhos ou a sociedade.
Talvez uma das partes mais tristes é ver que o conceito de pessoas mais magras terem algum privilégio sobre as obesas é causa de muita polêmica e negação. Há inúmeros blogs na internet que negam a existência deste privilégio – usando argumentos como “eu mereci este privilégio por me esforçar para ter este corpo”. Estas visões são simplistas, e negam dados contundentes. É preciso analisar como a gordofobia se relaciona fortemente com a misoginia, o classismo, o racismo e o capacitismo.
Esta lista pode servir como um primeiro passo de reflexão de um longo debate que se inicia, e se tornará cada vez mais pertinente conforme avançam o preconceito e a resistência.
Por Paula Borges


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