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"Nenhuma mãe deixaria eu fazer um teste no seu filho"

A geneticista Mariz Vainzof, da USP, explica que, para desenvolver um tratamento aplicável aos seres humanos, é preciso passar por modelos animais

Guilherme Rosa e Juliana Santos
animais
Entre os pesquisadores, a opinião é unânime: os o modelos animais são imprescindíveis para os experimentos. A ciência não dispõe de nenhum método alternativos para substituir os modelos animais em testes que podem salvar vidas humanas (Thinkstock)
A geneticista Mariz Vainzof é coordenadora do Laboratório de Proteínas Musculares e Histopatologia Comparada do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP. Suas pesquisas são focadas em uma série de doenças musculares humanas, de origem genética. A principal disfunção estudada em seu laboratório é a distrofia de Duchenne, que atinge um entre cada 3 000 homens. Os meninos portadores da mutação nascem normais, mas demoram um pouco mais que os outros para começar a andar. Com o tempo, começam a ter quedas frequentes e dificuldade para subir escadas. Aos dez anos, a fraqueza muscular é tanta que eles precisam usar cadeiras de rodas. "Antigamente, não costumavam passar dos vinte anos, porque não conseguiam respirar. Hoje vivem mais, por causa de aparelhos de suporte ventilatório, mas sua principal causa de morte ainda é a insuficiência respiratória e cardíaca", afirma Mariz.
O objetivo de seu estudo é chegar à cura da doença. Mas, para desenvolver um tratamento aplicável aos seres humanos, o caminho é longo — e tem de passar por modelos animais. O primeiro passo é entender como a doença funciona. Para isso, estudam o próprio corpo do paciente, em busca dos genes que sofreram mutação e de proteínas que faltem em seus músculos.
Em um segundo momento, a pesquisa tem de ser transferida para as culturas de células. Ali, a cientista consegue realizar mudanças nos genomas, ver quais genes produzem quais proteínas e qual efeito essas proteínas podem ter sobre determinadas células. "Os estudos in vitro são uma ótima ferramenta para responder a uma série de questões. Posso ver, por exemplo, que determinado fármaco afeta determinada proteína. Mas e depois? O que faço com essa informação? Injeto a substância no paciente? Nenhuma mãe deixaria eu fazer um teste no seu filho", diz Mariz.
Segundo a pesquisadora, chega um momento na pesquisa no qual a relação entre as diversas proteínas e o corpo tem de ser analisada de forma sistêmica, levando em conta o organismo com um todo. Ao testar um fármaco em um animal, ela poderia analisar seu funcionamento não só em um tipo de tecido — como acontece na cultura de células — mas levar em conta todos os sistemas do corpo, como circulatório, nervoso e imunológico. O resultado pode ser completamente diverso.
Em sua pesquisa, Mariz elaborou um possível tratamento baseado no uso de células-tronco extraídas da medula óssea dos camundongos. Sua ideia inicial, que parecia promissora a partir dos experimentos in vitro, era simples: injetar as células-tronco no músculo dos ratos e esperar pela cura. Ao analisar o animal, no entanto, não encontrou a proteína em seus músculos. Examinando mais a fundo, também não achou a célula inserida, nem seu DNA. "O tecido não durou dois dias no corpo do camundongo. Imagine se eu tivesse feito o teste em humanos. Íamos fazer um procedimento invasivo, ficar em dúvida sobre seu efeito e procurar pela proteína, quando, na verdade, essas células já teriam sido eliminadas logo no começo do experimento. Viu que resposta importante os camundongos nos deram?", pergunta.
O resultado fez a pesquisadora retroceder em alguns passos seu estudo, para analisar que tipos de células-tronco conseguem se fixar no local. "A ciência avança desse modo: pedaço por pedaço. Cada tijolo de informação adicionado vai formando uma estrutura cada vez mais sólida, tornando o ato seguinte mais embasado. O resultado não é imediato. Mas o objetivo final é curar os pacientes", diz.

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