MInha vida por um fio: deixo meu depoimento antes que possam me calar de vez

Sou professor há 20 anos. Nunca estive diante de fatos como os que vou apresentar agora.
Na terça-feira, dia 01 do corrente mês, estava no Barreto de Araújo, no São Caetano aplicando avaliação de Recuperação Paralela. Na turma 2C, uma turma que vem dando grandes dores de cabeça desde o início do ano, porque simplesmente eles não vem as aulas ou não fazem as atividades propostas, sendo que minhas aulas com eles são na terça e na quinta. Na quinta estou na escola apenas para a aula deles.
Um aluno, que há muito não via, entra com a turma.Está ele nesse momento ouvindo música em alto volume. Nada disse até aí. Cumprimentei a turma com boa noite, e pedi desculpas a todos porque a avaliação teria de ser copiada em folha de caderno, uma vez que não consegui a impressão da mesma.
Os aluno abrem o caderno,alguns retiram a folha, outros começam a copiar a avaliação, que são apenas 5 questões simples.
Em determinado momento, percebo que cadernos estão abertos e peço que fechem-no.O aluno em questão, está no fundo da sala e me questiona o que quero, e reafirmo que devem fechar os cadernos.
Percebo que um dos alunos, à frente está pescando e chamo a atenção dele. Nesse momento o aluno do fundo, se aproxima por detrás e me entrega a avaliação.Devolvo a ele e peço que retire as rebarbas do papel, coisa que faço com todo, invariavelmente faço. E me voltei para o aluno com o qual estava tratando antes de ser interrompido.
Ao virar para trás, percebo que a o aluno que estava ao fundo, o mesmo que entregou a avaliação, saiu e que sua avaliação está no cesto de lixo. Nesse momento, pensei que teria acontecido, e se ele entendeu o que pedi. Perguntei porque ele jogou a avaliação fora. Não tive resposta e por isso fui à porta. Já à porta, percebi o aluno em direção a escada, e perguntei novamente, ao que o aluo num rompante próprio dos valentões, abriu os braços, e afirmou que jogara a avaliação e se tinha algum problema que eu fosse resolver.
Achei até graça e disse que, na verdde, o problema era dele. O aluno retornou a mim, disse que se eu fosse professor de verdade, haveria uma avaliação impressa, como era da minha obrigação. E que avaliação copiada do quadro, assim como a preocupação com rebarbas de papel era coisa de professor que não tinha o que fazer. Disse a ele que, da minha obrigação eu cuidava e recomendei a ele que cuidasse da dele.
O dito saiu, e de costas para mim, descendo as escadas disse que eu devia ver os programas que passam meio dia, para ver o que está ocorrendo nas escolas."Tem muito professor morrendo por aí. Lamentei o ocorrido, e disse "lá vai mais um valentão!". Mas sei que não falei em voz alta, e,portanto, pelo distância ele não poderia ouvir. Na verdade,ele já estava no andar de baixo, quando retornou, depois de algum tempo,e me perguntou se eu havia dito que ele era valentão. Havia uma aluna próxima a mim na hora em que o disse e creio que ela levou a informação a ele.
O certo,é que o aluno retornou, me perguntou e eu afirmei que havia dito. O aluno me perguntou se eu o conhecia e se sabia quem ele era e o que fazia. Devolvi a pergunta a ele. E disse que se ele mesmo não sabia quem ele era, pena para ele. Disse ainda que pouco me importava.
Ele deu as costas, disse para eu ficar atento ao meu redor. E que tem muito aluno e professor morrendo.
Depois de uns minutos,um aluno saindo da avaliação me chamou ao canto e disse "ele é o chefe do tráfico na Baixinha do São Caetano". Chamei a diretora para fazer o relato por escrito, e ela afirmou que o dito rapaz havia estado preso e foi solto por bom comportamento.
O nome dele é Nailton Oliveira.
Semana passada o diretor me pediu para que não aparecesse na escola. Atendi. Hoje recebo a notícia de que os alunos viram o dito aluno com dois capangas,havendo aluno que afirmou que o o dito Nailton estava armado. Ele anda com uma bengala, manca de uma perna, segundo dizem por conta de um tiro que teria levado.
Faço esse relato e confesso que estou preocupado. Claro que não quero morrer, inda mais de uma forma estúpida como essa. Entretanto, medo não tenho.
De qualquer jeito me ponho a pensar que profissão ingrata é essa que tenho. Pois para a sociedade sou um desocupado, que inventa coisas desnecessárias. Acreditam que professores ensinam bobagens, e que o que fazemos está desvinculado da realidade dos alunos.
O governo,pelo tratamento que dispensa, julga que somos seus inimigos. Recentemente temos visto notícias de professores recebendo paulada nas ruas, por exigir apenas condições de trabalho e salário. Professor não recebe salário. Engraçado que outras carreiras com menor exigência para o ingresso e ascensão, já começam com valores de salários maiores que os do magistério.
Mas bandidos são levados às prisões e ninguém pode toca-los! Até o policial que os leva pode responder se usar algemas... falar rispidamente,ou sei lá. Esse mesmo, se eu tocar nele, mesmo que seja para minha defesa, serei preso. Ele, quando for levado à delegacia, terá um advogado lá para solta-lo antes mesmo de ser colocado no camburão. Um alvará de soltura, um habeas corpus, e pronto... um homem de bem morto, um assassino livre.
E a vida vai seguir. Colegas e alunos vão achar que foi pouco para mim e que ia acontecer uma hora dessas mesmo. Colegas... que decepção. Se acham educadores. Não o são. Mas vão viver muito. Alguns também são bandidos. Mas essa é uma discussão outra, que talvez eu não viva para comentar. Mas fica a dica...
Fiz esse relato, porque se perceberem minha ausência, saberão do que se trata. Ah,tentei fazer o B.O.mas na delegacia virtual não se pode fazer. E na delegacia física, quando fui o sistema estava fora do ar.
Mas acho que pior ainda é o assassinato que as pessoas fazem em seus corações. Nos casamentos, quando a esposa frígida,se recusa ao carinho e cuidados afetivos diários, estando preocupada apenas com a casa, mais que com as pessoas dela. Como disse,tenho alunos que não fizeram a ameaça, nem empunham uma arma. Mas em seus corações matam,centenas de vezes, seus pais, professores e outros. Nesse aspecto,fui morto milhares de vezes.

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