Meu relato sobre Maria Célia Paz


Luto é uma palavra bastante triste. Ela, por si mesma, encerra o fim de algo que começou.
Tive uma amiga, chamada Maria Célia Paz. Uma figuraça.  Morava na cidade de Ibicarai, onde tive a oportunidade de ser professor por algum tempo, ensinando Física num pré-vestibular.
Foi um tempo difícil e um dos cursinhos onde lecionava me ofereceu a vaga por intermédio do irmão de Célia. Eu nem sabia que os dois eram irmãos, até o dia em que vi ele adentrar a sala da UTI para visita-la.
Quem me apresentou a Célia foi uma ex-namorada, chamada Rose Cássia. Adventista e estudante de geografia, as duas foram colegas de faculdade. Célia acreditava que minha história com Rose ainda não acabou, e que, em algum momento, ela e eu iremos nos reconciliar e formar uma família.
É claro que Célia sabia que Rose e eu nos separamos ainda no tempo de faculdade, por questões de discordâncias. Como se o casamento fosse o encontro de duas pessoas que concordam entre si todo o tempo! Mas o fator que mais me motivou a não continuar o relacionamento com Rose, foi a mãe dela, e a ligação entre ambas. Embora minha própria mãe não aprovasse meu namoro com Rose, a mãe dela me criava situações atordoantes. E achei com isso que formar uma família que já começava com uma vírgula não ia ser fácil.
É Célia, sempre que vinha a Salvador, nos últimos 4 anos, se encontrava comigo no Shopping Iguatemi, para atualizar nossas vidas, regando o papo com um ótimo café e uma torta de morango no Feito a Gráo da Livraria Saraiva. Era um momento ótimo para rir. Falávamos de nossas conquistas, perdas, planos. Até parecíamos, nesse ponto, namorados. Nunca trocamos qualquer contato íntimo, do ponto de vista físico. Mas tivemos uma proximidade que, eu creio, ela não teve com o marido dela, e nem eu com a minha esposa.
Estive afastado por um ano de minhas atividades laborais para tratamento médico. Ela ficou por dois anos, vindo a ser aposentada por invalidez. Se tinha uma palavra que não podia ser aplicada a ela, era essa: inválida. O trabalho que ela desenvolveu em uma comunidade no sul da Bahia, e a forma como desenvolveu suas atividades a frente do grupo de gestão de bacias, certamente não era atividade de inválido. Eu nunca teria feito melhor. Nem igual!
Um dia, estivemos eu e minha irmã caçula na Saraiva para tomar um café com ela. Foi engraçado. Minha irmã achou de flertar com um senhor que estava em uma mesa um pouco mais distante. As duas julgaram que o homem em questão era “sarado”, “atraente”, “bonito”, etc... eu, evidentemente, discordei e prostestei. O garçom resolveu ajudar na bagunça das duas e passou a levar os bilhetes para o cabra, que passou a enviar respostas. Mas, ela não se  mostrava para ele, e minha irmã estava sendo apoiada por Célia... tomei uma atitude. Como irmão mais velho, não podia permitir que minha irmã caçula virasse “marmita” de um gaiato desclassificado como aquele. Em determinado momento, minha irmã enviou um bilhete, e eu o substitui por um outro pedindo ao distinto que olhasse em nossa direção. O sujeito, cheio de vida olha. Eu dou um tchauzinho para ele, sorrindo bem descarado... para minha sorte o cara era hetero, levantou e foi embora. Acabei com a farra das duas!!!! Game Over!
Estive num outro restaurante chamado Bar Tal, que fica no Costa Azul. Muito legal o ambiente. Já estive lá com várias pessoas e sempre que dá, vou com a família. Fui com ela, e a simpatia dela comprou os garçon de lá.
Ocorre que, na última vinda dela para Salvador, como o esperado no script, ela me avisou. Dessa vez, ela veio participar de um congresso, sabe lá Deus do quê. E, no último dia, ela passou mal. Teve um enfarto do miocárdio, tendo sido levada para um hospital próximo ao evento. Teve tratamento de primeira linha, enquanto esteve na UTI do dito hospital.
Fui visita-la no segundo dia de internamento dela, porque no primeiro, eu só recebi a mensagem já muito tarde. Saí mais cedo da escola, inclusive porque soube pelo sobrinho dela, que ela a todo momento perguntava se eu já havia sido avisado e se já havia chegado. Aquilo me preocupou.
Estive dia seguinte lá. E conversamos muito. Comecei perguntando “que presepada é essa? Precisa disso tudo para chamar a atenção?” Claro que estava brincando. Mesmo nesse nível, com ela eu podia e nem ela se ofendia nem eu me achava invasivo.
Ela riu e me contou que teve uma discussão com a irmã e com a filha, e que provavelmente fora esses dois eventos que a haviam perturbado ao ponto do coração não aguentar. Conversamos um monte. Dessa vez, sem café nem torta, mas foi igualmente agradável estar com ela. Estive outras duas vezes no quarto. Na última ela me informou que havia feito o cateterismo, e que este revelara uma extensa lesão no coração. Por isso o mesmo precisava de uma breve cirurgia que seria feito dois dias depois.
Nessa ocasião, quando entrei no quarto, ela me disse duas coisas curiosíssimas. A primeira que havia sonhado comigo, e no sonho, me dava um abraço. Havia uma enfermeira no quarto nesse momento que perguntou “ele é aquele seu amigo”?  e ela confirmou que sim. A segunda coisa que me chamou a atenção foi quando eu saia que ela disse que, quando que ia ao quarto, ela ficava mais leve, e que eu levava anjos comigo. Como eu queria que fosse verdade isso! E como eu queria que esses anjos a tivessem ajudado.
Ela era espírita. E a crença espírita está em profundo desacordo com as crenças evangélicas, das quais comungo. Se ela estiver certa, tudo bem, nada há para temer. Mas se eu estiver certo, minha amiga, partiu, e não terá um lugar ao céu. Queria que ela estivesse em contato com anjos sim. Os bons anjos (Satanás também é anjo!), poderiam te-la ajudado, naquela manhã de sábado, quando sua vida se encerrou.
Não sei o que deu errado. Mas fico feliz de ter dito, no meu último encontro com ela, que eu a amava. Não como homem. Mas como um irmão quer bem à sua irmã. Disse a ela isso, e que julgava necessário que ela vivesse ainda muito. Para meu bem, o de sua filha e o bem de muita gente.
Mas Deus quis, ou permitiu, que ela partisse. Sei que ele faz tudo certo, e que seus propósitos não podem ser sondados. Sei também que esse momento vai passar.
Minha amiga esta fazendo falta para muita gente, inclusive para mim. Não pensei que fosse sentir tanto.
No sábado, quando comentei com minha esposa o que havia ocorrido com Célia, minha filha percebeu que eu não estava confortável, e simplesmente me abraçou. Não disse nada. Apenas me abraçou. Engraçado como as crianças parecem ter percepção de momento mais adequado que os adultos. Precisava de um abraço naquele momento.
E, ao findar esse relato, duas coisas me incomodam. Uma é que, inevitavelmente, todos sentiremos dessa dor. Todos, sem exceção teremos nossos entes queridos tirados de nós até que nós mesmos seremos tirados também. A Bíblia, a Biologia e a Termodinâmica explicam isso muito bem. Cada uma por uma vertente diferente, mas igualmente estarrecedoras.
A segunda trata da responsabilidade que temos diante de nós e dos nossos. Célia tinha comprometimentos cardíacos sérios e mesmo assim teve uma discussão banal com a irmã. Esta devia ter mais cuidado. E nesse momento, sinceramente, não queria estar no lugar da irmã dela. Se ela sente remorso, ou não eu não sei. Se fosse eu, me sentiria culpado por um longo tempo. Embora eu saiba que isso não a trará de volta.
Imagino que elas, quando se viram no hospital devem ter conversado novamente e lá resolveram suas diferenças. Tomara. E isso me lembra uma namorada que tive, que se arrependia de não ter dito ao pai que o amava, quando este estava indo para o hospital. Segundo ela, a ida do pai ao hospital foi uma decisão própria diante de um quadro que se agravava. Saiu de casa com as próprias pernas, voltou num caixão, 4 dias depois. Talvez não tenhamos tempo para dizer palavras agradáveis de se ouvir num momento posterior ao agora. E também as palavras necessárias. De agradecimento, se for o caso, de encorajamento, de qualquer tipo que seja necessário dizer.
Estive por um fio há um ano e meio atrás. Foi um momento doloroso. Saí vitorioso depois de muita luta pela vida. Me encorajou minha filha e meu filho ainda sendo gestado vir, naquele momento. Pensava neles, e foi-me encorajador pensar neles.
Numa tarde disse para minha esposa algumas palavras de agradecimento, e pedi perdão por tudo que havíamos vivido até ali que estava fora do script. Também disse que a ainda a amava e não iamginava minha vida longe dela. Pedi para que fosse apagado nosso passado até aquele momento, para que tivéssemos uma vida a dois melhor e mais agradável a ambos. Prazerosa e amorosa. Ela nada disse naquele momento. E continua calada sobre isso, até aqui.
Fazemos escolhas diariamente. Meu instinto me dizia para falar algo agradável para minha amiga, e não o neguei faze-lo. Não esperava que acontecesse o que aconteceu. O The end podia ter outro roteiro. Um com menos lágrimas, ou se a tivesse que fosse de agradecimento. Nós já estávamos planejando passar na Centauro para comprar um pedômetro, e uma cinta para acompanhamento cardíaco. Íamos começar juntos a perder peso (me lembro exatamente agora que fizemos esse compromisso) e adquirir uma vida mais saudável. Não houve tempo.

Minha amiga, meu compromisso continua. Perderei peso sim, e passei a tomar medidas mais saudáveis. embora fosse você uma pessoa muito agradável, pretendo adiar nosso próximo encontro. Mas sei que os bons anjos, vestido de branco, virão preparar um café saboroso para nós dois. Com torta de morango. Até lá, então.

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