Pesquisas premiadas do Nobel foram 'revolução' genética, dizem cientistas

Pesquisas premiadas do Nobel foram 'revolução' genética, dizem cientistas

Descobertas ajudam a entender doenças genéticas.
Cientista japonês vencedor do Nobel é 'humilde e fantástico', diz professora.

Rafael Sampaio Do G1, em São Paulo
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As descobertas escolhidas para o Prêmio Nobel de Medicina de 2012, divulgado nesta segunda-feira (8), trouxeram avanços e pequenas revoluções no estudo da genética pelo mundo, afirmaram ao G1 professores e pesquisadores da área, de instituições como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Elas têm ajudado a entender como funcionam doenças de origem genética ou em que há chance desta origem, como Alzheimer, Parkinson, esquizofrenia e autismo, disseram os cientistas.
O pesquisador japonês Shinya Yamanaka, de 50 anos, um dos premiados com o Nobel, "reprogramou" células diferenciadas (que já têm função, como as da pele) para que passassem a ser embrionárias, do tipo que dão origem a qualquer tipo de tecido, como músculos. Sua descoberta, registrada em 2006, tem como diferencial ter criado um método de fazer a "reprogramação" sem precisar de óvulos, ressalta Patrícia Cristina Beltrão Braga, professora de genética da USP.
Yamanaka Nobel Medicina 2012 (Foto: Kyodo News/AP)Yamanaka recebe ligação do primeiro-ministro japonês, Toshihiko Noda, que parabenizou o cientista por telefone nesta segunda-feira (8) (Foto: Kyodo News/AP)
Na natureza, todos os animais se desenvolvem a partir de óvulos fertilizados. Nos primeiros dias após a concepção, o embrião é composto por células imaturas ou embrionárias, que acabam virando vários tipos de células durante a formação e o amadurecimento do feto. Assim, cada grupo de células se especializa e adquire a capacidade de desempenhar uma função específica.
Até então, essa transformação era considerada unidirecional, sem possibilidade de volta. Mas Yamanaka e, antes dele, o pesquisador britânico John Gurdon, descobriram que poderiam criar células embrionárias a partir de outras diferenciadas - Gurdon usou óvulos para chegar a este resultado, em 1962.
Qualquer tipo de célula
A descoberta de Yamanaka "tem uma aplicabilidade fantástica. Através da ferramenta criada por ele, é possível chegar a produzir qualquer tipo de célula que quisermos em laboratório", afirma Patrícia. Ela ressalta que a experiência do cientista japonês, que tem sido muito usada para estudar doenças psiquiátricas, serve de base para sua equipe, que estuda como transformar células da polpa dos dentes de pessoas com autismo em neurônios.
A pesquisadora, então, analisará estes neurônios para entender em que eles são diferentes dos de outras pessoas, como reagem a novos remédios e qual sua composição química, por exemplo, no projeto da USP chamado "A Fada do Dente".
Sem as técnicas de Yamanaka, seria muito difícil obter células vivas e com a mesma carga de DNA do seu "dono". Os neurônios, por exemplo, são inacessíveis sem uma biópsia.
Células-tronco vistas por microscópio foram desenvolvidas no Japão a partir de fibroblastos, células adultas da segunda camada da pele, a derme. O trabalho desenvolvido pelo britânico John B. Gurdon e o japonês Shinya Yamanaka recebeu o Nobel de Medicina. (Foto: Reuters/Center for iPS Cell Research and Application, Kyoto University)Células-tronco vistas por microscópio foram desenvolvidas no Japão a partir de fibroblastos, células adultas da pele (Foto: Reuters/Center for iPS Cell Research and Application, Kyoto University)
Caixa de Pandora
A descoberta tem aplicações que vão além da medicina, diz o neurocientista da UFRJ Stevens Rehen, coordenador do Laboratório Nacional de Células-tronco Embrionárias (LaNCE). "É quase como se tivéssemos aberto a caixa de Pandora da genética. Abre precedentes para questionar como ocorre o envelhecimento, por exemplo", diz o cientista. A técnica de "reprogramação" permite fazer uma célula voltar a ser embrionária e, com isso, estudar o seu envelhecimento.
Outra aplicação pode ser a criação de óvulos férteis a partir da pele ou de outros tecidos, o que permitiria a reprodução independente de o indivíduo ter óvulos ou não, segundo o pesquisador. A descoberta, para Rehen, "deve mudar vários paradigmas da biologia moderna" no futuro.
Células-tronco Nobel (Foto: Center for iPS Cell Research and Application/Kyoto University/Reuters)Imagem de neurônios derivados de células-tronco
(Foto: Center for iPS Cell Research and Application/
Kyoto University/Reuters)
O neurocientista, que estuda neurônios obtidos por "reprogramação" de células de pessoas com esquizofrenia, aponta que o trabalho do cientista japonês é uma evolução dos estudos do britânico John Gurdon, também premiado com o Nobel deste ano.
Há cerca de meia década, Gurdon usou técnicas para transferir o material genético de uma célula madura do intestino de um girino para um óvulo de sapo. O óvulo modificado acabou se desenvolvendo em um girino normal, com a "reprogramação", segundo os cientistas.
A pesquisa de John Gurdon abriu caminho para a clonagem, e sua técnica serviu de princípio para cientistas criarem a ovelha clonada Dolly, afirma Lygia da Veiga Pereira, professora titular de genética da USP. "Gurdon quebrou um paradigma importante, ele mostrou que o genoma poderia ser reprogramado". ressalta ela.
O que o cientista japonês fez, em 2006, foi identificar os fatores responsáveis pela "reprogramação", criando uma espécie de ferramenta de estudo ou "receita de bolo", no entendimento dos pesquisadores.
O reconhecimento com o Nobel foi "muito rápido", já que a pesquisa do cientista japonês foi publicada há apenas seis anos, diz Lygia. "Isso [os estudos de Gurdon e Yamanaka] mudou muito a maneira como a gente faz pesquisa em células-tronco e terapia celular", disse ela.
Patrícia disse ter encontrado Yamanaka em 2010, durante um congresso nos Estados Unidos, e ter ficado admirada com a humildade com que ele trata as pessoas. "Ele sentou comigo, olhou minhas imagens e discutiu comigo meu trabalho. Foram dez minutos e ele me deu esse tempo dele. Ele é muito humilde, é uma pessoa fantástica", disse ela.

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