“Gabriela”: autor fez graça ao retratar preconceitos e costumes retrógrados - Televisão - Entretenimento


26/10/2012 - 22:49

Porque fazer um comentário num blog sobre ciência e escola, a respeito da Novela Gabriela? Bom, a priori tudo pode ser usado para educar. Novelas não fogem à regra.

Há muito tempo deixei de ser noveleiro. Não as acompanho mais. Muito mais por questões relativas aos meus valores. Acho que muitas das novelas que temos na televisão não serem para absolutamente nada, exceto passar o tempo. E se é para passar o tempo, assisto um filme, leio um livro, durmo... novelas, definitivamente estão fora do meu cardápio.
Entretanto, assisti alguns capítulos desta adaptação. Concordo com o comentário que segue, feito por Nilson Xavier. É inteligente   e revela clareza. Apenas ao final é que discordo deste, quando ele nos diz que os preconceitos apresentados na novela são passado. Não o são. Estão presentes em nosso cotidiano. 
Pego um exemplo simples, extraído da novela Avenida Brasil. O Brasil inteiro esteve esperando que Tufão descobrisse as armações de Carminha e tomasse uma atitude. Vi várias mulheres afirmando que ela, Carminha, merecia tomar uns tapas. Houveram pessoas que assistindo aos últimos capítulos se sentiram traídas pelo autor, uma vez que no final, Carminha e Rita fizeram as pazes. Como se as pessoas tivessem de ser más, e não fosse dado ao ser humano o direito de mudar para melhor. Rever suas posturas e se aperfeiçoar. Carminha mostrou-se vítima. De um passado cruel com ela, e que a fez ser dura e egoísta. Max e Carminha seram muito parecidos com Rita e Jorginho. Exceto pelo fato de que estes últimos eram mais nobres. Mas igualmente humanos e falhos. Carregados de faltas como todos os outros seres desta esfera.
Precisamos pensar que nossos preconceitos nos ajudam a ser o que somos: humanos. Nem melhores e nem piores, apenas humanos. Precisamos supera-los sim. Neste momento, por exemplo, há quem considere Jesuíno uma vítima. Do seu tempo, de sua história, de sua formação. E não deixa de se-lo. De forma semelhante, Dorotéa, é vítima do preconceito e vergonha que nutre contra si mesma. Coisa triste de se pensar, mas quantos homens há que julgam que sua esposa não tem o direito de recusar sexo? Como se fossem máquinas, elas sempre tem de estar dispostas. E quantas mulheres, por questões alheias à sua vontade estão na prostituição. Se fossem escolher, não estariam. 
Mas os dilemas humanos não se esgotam numa análise feita as pressas de uma novela. Nem tenho autoridade para dar a palavra final sobre esse assunto. Leiam os comentários do Nilson e contribuam com seus próprios comentários. Aguardo-os ansiosamente.

Juliana Paes em “Gabriela” (Foto: TV Globo)
Esqueçam a história original de Jorge Amado, o filme de Bruno Barreto e as outras adaptações de Gabriela Cravo e Canela para a televisão. Quando um escritor se propõe a adaptar um livro, ele é o novo senhor do texto (já que adquiriu os direitos para tanto) e tem plenos poderes para imprimir sua marca na nova obra.
E foi assim com a Gabriela de Walcyr Carrasco, a novela da Globo que terminou na sexta-feira (26/10). Todas as características do novelista estavam lá. Os diálogos ferinos e espirituosos, as frases no imperativo, os personagens caricatos em situações engraçadinhas, camas quebradas, tortas na cara, etc. Até um bichinho de estimação Carrasco arrumou para Gabriela. Tudo isso já conhecemos de outras novelas do autor. E ele, esperto, sabe que funciona. Carrasco é um novelista popular.
Gabriela também teve cenas densas, seja pela violência ou pela emoção. O elenco de primeira e a direção primorosa (de Mauro Mendonça Filho) ajudaram bastante. Uma novela bela de se ver, uma produção requintada, desde a abertura (uma das mais bonitas dos últimos tempos) até cenários, figurinos, fotografia e a trilha sonora saudosista, que trouxe de volta algumas das músicas da novela de 1975 – um grande acerto.
Juliana Paes esforçou-se com a sua Gabriela e, por isso, merece crédito. Em momento algum comprometeu a personagem. E nem ficaria marcada pela sua interpretação ou “entraria para a história”. A Gabriela de Sônia Braga ficou lá em 1975, em outra novela, outra situação e momento (da televisão brasileira e de nossa sociedade). Não cabe aqui esperar que se fosse repetir o que aconteceu no passado.
Gabriela de 2012 trabalhou com outros elementos e referências, que têm a ver com o nosso presente (apesar de ser uma trama de época). A Gabriela da década de 1970 também foi assim, usou as referências que tinha naquele tempo – inclusive as limitações, já que a TV vivia sob a censura do Regime Militar.
O Bataclan atual lembra o Moulin Rouge e a Maria Machadão é Ivete Sangalo. É a liberdade criativa que temos para hoje – ainda que seja duro de engolir um Bataclan tão glamuroso, com shows dignos da Broadway. Ivete Sangalo não fez bonito, mas tampouco fez feio. Esteve à altura do que tinha para mostrar e o texto não lhe exigiu muito.
José Wilker como o Coronel Jesuíno em “Gabriela” (Foto: TV Globo)
Gabriela conquistou o público ao poucos e por fim, agradou. Fechou com média de 19 pontos no Ibope (cada ponto equivale a 60 mil domicílios na Grande São Paulo), a mesma de O Astro, a atração do ano passado. Teve repercussão nas redes sociais – por várias vezeshashtags envolvendo a novela estiveram nos TTs do Twitter (os assuntos mais comentados). Os bordões “Vou lhe usar” (do Coronel Jesuíno/José Wilker) e “Jesus Maria José!” (de Dona Dorotéia/Laura Cardoso) se popularizaram, foram repetidos, viraram memes na Internet,charges engraçadinhas no Facebook.
Gabriela mal apareceu em alguns capítulos. A trama central – o romance entre ela e Nacib – ficou por várias vezes em segundo plano, à medida que algumas tramas paralelas foram despertando mais a atenção do público, como a história de Malvina, a trajetória de Lindinalva e o assassinato de Sinhazinha.
No elenco, vários atores se destacaram, tanto veteranos quanto novatos. Luiza Valdetaro (Jerusa), Vanessa Giácomo (Malvina), Giovanna Lacelotti (Lindinalva), Marco Pigossi (Juvenal) e Rodrigo Andrade (Berto) fizeram bonito. Humberto Martins deu um tom abobalhado ao seu Nacib, tanto quanto Marcelo Serrado fez com Tonico Bastos.
Mas foi a interpretação de Maitê Proença (como Sinhazinha Guedes Mendonça), José Wilker (como o Coronel Jesuíno) e Laura Cardoso (como a beata Dorotéia) que marcaram a produção. Em seu texto, Carrasco consegue pular do humor bobinho à emoção dramática com muita competência. Algumas vezes vimos cenas em que o Coronel Jesuíno (e também Dona Dorotéia) passava do risível ao emocionante com uma naturalidade impressionante.
Walcyr Carrasco fez graça ao retratar preconceitos, pensamentos e costumes – retrógrados aos olhos de hoje – da Ilhéus da década de 1920, em que os coronéis poderosos se julgavam acima da lei, as mulheres não tinham direito a se expressar, enquanto aos homens tudo era permitido, e a moral era altamente discutível. Temas que ecoam hoje em dia. Nas falas dos personagens, através de piadinhas sobre machismo, prostitutas e homossexuais, o autor encontrou respaldo no público, que reconheceu o que foi pintado na tela. Quem sabe até, se identificou. Talvez daí o seu sucesso.

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