G1 - Amigos criam tirinha para falar sobre deficiência física e ser humano - notícias em Paraná

Uma iniciativa de grande importância, que traz a luz nova discussão sobre as diferenças entre humanos, seus limites físicos, e nossas atitudes diante da diferença.
Me fez lembrar que há pouco menos de um mes conheci uma menia-guerreira. Foi por ocasião do nascimento de meu filho, Filipe, quando este esteve internado por uma semana na UTI neonatal do Hospital Português. Lá está uma menininha que nasceu com pouco mais de 5 meses de formação, e pouco mais de 600 g. Do nascimento há 4 meses, até aqui, ela já fez duas cirurgias. E consegue chamar a atenção de todos dentro do hospital com sua luta pela vida. Cada vitória que essa moça alcança, é bastante comemorada por toda a equipe médica que acompanha (enfermeiros, fisioterapeuta, cardiologista, pediatra, nutricionista, nutrólogo...), família e demais pessoas que acompanham seus filhos.
Porque me lembrei dela? O que ela tem a ver com deficiências físicas? Não muito. Exceto o fato de que enquanto lá estive, acompanhando lembrei, pela fragilidade daquela recém nascida, que há não muito tempo atrás, ela seria "descartada". É trsite pensar nisso, mas a humanidade faz isso desde os antigos grgos!
Segundo a história, os espartanos de tempos em tempos, levavam crianças recém nascidas ao alto de um certo monte e jogavam esses nascidos do alto, se julgassem que eles não tinham as qualidades necessárias para a vida militar a qual seriam submetidos a partir dos 7 anos de idade.Para os espartanos viver era um direito aos perfeitos. Qualquer traço, por menor que fosse, que indicasse imperfeição, física ou mental, e a criança seria descartada. Entre algumas tribos, no Brasil  de hoje, ainda ocorre esse fenômeno, denominado de infanticídio. Quase sempre essas tribos são nômades, portanto, não praticam agricultura, mesmo a mais rudimentar. Vivendo de caça, pesca e coleta, para eles é difícil levar a tira-colo crianças ou adultos que apresentam defeitos físicos. Essas crianças são mortas pelos próprios pais
Há quem julgue isso um absurdo (eu sou um deles), e há quem considere isso algo perfeitamente normal e aceitável e precisa que o homem civilizado se submeta e respeite essa cultura própria dessas tribos. 
Não pretendo entrar na discussão sobre se é aceitável, ou não o que essas tribos realizam. Para essa discussão creio que pé preciso tomar conhecimento de vários outros fatos que permeiam esse costume, e se ele é aplicável ainda hoje em dia. Creio que entraríamos em outras discussões paralelas como o direito das mulheres, das crianças, aborto, e outros... não é esse o objetivo dessa postagem.
De qualquer sorte, percebe-se que nossa sociedade mudou muito. E que hoje o direito à vida é perseguido, mesmo quando se mostra tênue, frágil e pouco possível de se concretizar. E não apenas, o direito à vida é perseguido, mas também o direito de vive-la com o máximo de dignidade e respeito.
Por isso, não apenas admitimos que pessoas com deficiências convivam conosco, como precisamos nos despir de nossos preconceitos sobre elas. E precisamos criar as condições para que essas pessoas estejam entre nós com dignidade. Escolas, prédios públicos em geral, mercados, ruas, igrejas... precisam de acesso garantido a esses cidadãos.
Para encerrar minhas considerações, ocorre-me que trabalhei em uma escola para crianças excepcionais, com ensino Montessoriano. Foi uma época difícil para mim e já fazem quase 20 anos isso. Lá aprendi que todos, absolutamente todos temos o cérebro com algum grau de lesão. Logo, de alguma forma, todos somos excepcionais. Até que ponto essa excepcionalidade se manifesta em nossa vida? Em alguns caso, na nossa capacidade de andar, de falar, de coordenar idéias, julgar, realizar operações matemáticas. Em alguns casos, em nosso caráter! Logo, todos somos deficientes físicos, mentais, morais...
Segue a reportagem, da qual espero bons comentários.


20/10/2012 09h00 - Atualizado em 20/10/2012 09h08

Amigos criam tirinha para falar sobre 



deficiência física e ser humano

"Super Normais" foi criada por três deficientes físicos que vivem em Curitiba.
Para eles, tirinha fala mais sobre temas do homem do que de acessibilidade.

Bibiana Dionísio
Do G1 PR
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Da esquerda para a direita estão Mirella Prosdócimo, Manoel Negraes, Rafael Camargo e Rafael Bonfin (Foto: Bibiana Dionísio/ G1 PR)
Da esquerda para a direita estão Mirella
Prosdócimo, Manoel Negraes, Rafael Camargo e
Rafael Bonfin (Foto: Bibiana Dionísio/ G1 PR)
Um grupo de amigos de Curitiba decidiu retratar a deficiência física de uma maneira diferente e, principalmente, fora de padrões, preconceitos e estereótipos que eles percebem serem corriqueiros na sociedade. A consultora para inclusão, Mirella Prosdócimo, de 38 anos, o sociólogo Manoel Negraes, 33, e o jornalista Rafael Bonfin, 30, são deficientes físico e decidiram criar a tirinha “Super Normais” para mostrar que são pessoas comuns.


“Pessoas com deficiências normalmente são retratadas como super-heróis, pessoas que superaram milhares de desafio, então, são além do normal, ou como coitadinhos, dignos de pena. Então, a gente queria fazer este paralelo (...). Somos pessoas supernormais com histórias, como qualquer outra pessoa. Lógico que a gente acaba passando por algumas dificuldades, de vez em quando, mas são questões mais físicas, mais práticas do dia a dia como subir uma escada ou não conseguir usar um banheiro”, disse Mirella, que sofreu um acidente de carro aos 17 anos e ficou tetraplégica.



Composta por três quadros, a tirinha surge por meio de personagens reais, retrata as diferentes experiências vividas pelos três e nem sempre tem a deficiência como temática principal já que surge de conversas descomprometidas sobre o homem.

 (Foto: Divulgação/ Super Normais)Quadrinhos falam sobre deficiências físicas (Foto: Divulgação/ Super Normais)


A difícil tarefa de traduzir as reflexões de Mirella, Manoel e Rafael e também de dar o tom humorístico às ideias do grupo cabe ao desenhista Rafael Camargo, que não conhecia nenhum deles quando foi convidado para participar dos “Super Normais”.



Ele contou que ficou surpreso ao entender a proposta e perceber que a deficiência física era um fator menor. Para ele, este projeto trabalha essencialmente com a dificuldade do ser humano lidar com as dificuldades. “O que foi um soco no estômago, na verdade, foi que o que eles estavam mostrando para mim não tinha nada a ver com deficiência. Tinha a ver com respeito, com civilidade, resiliência. Eu falei: nossa isso é muito bom. É muito verdadeiro”, lembrou o desenhista. “Até no dia eu chorei, foi muito massa”.



No primeiro encontro se estabeleceu um entendimento imediato e quem foi convidado, incialmente, apenas para desenhar, deu nome a tirinha e passou a acumular a função de redator. A partir das conversar dos amigos, Camargo capta aquilo que pode render uma história contada em três etapas.



Para Rafael Bonfin, que teve complicações no parto e não consegue andar, Camargo tem uma sensibilidade e uma habilidade interessante para passar as reflexões para a tirinha. “Ele conseguiu perceber que na verdade o que a gente faz com os Super Normais é colocar uma lupa de aumento em relação aos desafios que qualquer ser humano tem. Falar sobre questões do nosso universo tem a ver com olhar com cuidado para os problemas inerentes ao ser humano”, explicou Bonfin.



É unânime entre Mirella, Manoel e Rafael que a sociedade dá mais importância à deficiência física do que o próprio deficiente. Contudo, este destaque é distorcido. “Elas [as pessoas] dão importância, mas elas pegam pelo lado de preconceito, de estereótipo e não da forma que deveriam dar para que se pudesse avançar em relação à cidadania e ao respeito de direitos. Então, ao mesmo tempo em que a gente vê que elas dão muita importância, elas ainda param na vaga exclusiva, elas não se preocupam em fazer a acessibilidade. Então, qual é este olhar que a sociedade tem maior do que a gente”, questionou Manoel, que tem 15% da visão.



O projeto
Uma vez por semana, os amigos se reúnem no Café New York, em Curitiba, para discutir o andamento dos “Super Normais” e também para conversar sobre assuntos diversos. A escolha do lugar não foi aleatória. O espaço prima pela acessibilidade, com rampas de acesso, banheiros adaptados, mesas e bancadas mais baixas e equipe capacitada para atender clientes que são deficientes.



É entre assuntos de trabalho e do dia a dia, um café e um sanduiche que surgem as tirinhas. Atualmente, o produto – que tem um pouco mais de um mês de vida - é divulgado na internet. A equipe aposta nas redes sociais para que os personagens e a linguagem da proposta se tornem conhecidos.



Para 2013, o objetivo é divulgar a tira em um veículo do grande circulação e lançar publicações impressas. Mirella, Manoel, Rafael e Camargo também trabalham a ideia de criar um material para criança, com uma veia educacional.

Eles se encontram no Café New York, em Curitiba (Foto: Bibiana Dionísio/ G1 PR)Eles se encontram no Café New York, em Curitiba (Foto: Bibiana Dionísio/ G1 PR)
A aceitação da deficiência física
Na avaliação de Camargo o humor de qualidade só pode ser expresso na tirinha dos “Super Normais” porque Mirella, Manoel e Rafael têm maturidade para lidar com as limitações. “No primeiro encontro eu dava muita risada e isso é legal porque é um lance de humildade. Você tira sarro com algo que é supernormal”, disse Camargo.


No caso de Manoel, a deficiência começou a se manifestar na adolescência e ele contou que demorou sete anos para assumir que precisava usar a bengala. Para ele esta fase de aceitação e totalmente compreensiva. O complicador, de acordo com ele, existe quando o deficiente age de uma forma que legitima o preconceito visível na sociedade. “Essas imagens de super-herói e de vítima não existem à toa. Não é uma coisa que foi colocada só de um lado. As pessoas com deficiência reforçam isso no dia a dia”, acredita Manoel.



Ele afirmou que, em muitas situações, é mais cômodo a pessoa se colocar como vítima. “A tendência é a gente se acomodar. As pessoas costumam fazer tudo para a gente e, se a gente deixar, a gente não faz nada, mesmo”. Manoel exemplificou ao dizer que se ele entra em um lugar e diz que está com sede, logo já tem um copo de água na frente dele. “Então é muito fácil a gente se acomodar e legitimar esta ideia de que a gente não pode fazer nada sozinho”, acrescentou.

Super Normais fizeram uma tira exclusiva para o G1 (Foto: Divulgação/ Super Normais)Super Normais fizeram uma tira exclusiva para o G1 (Foto: Divulgação/ Super Normais)
Mirella contou que viveu muito tempo esperando uma solução para a deficiência dela, esperando os movimentos voltarem. “Demorei muito tempo para me adaptar porque eu perdi todos os movimentos do pescoço para baixo. Não é uma situação que você se adapta do dia para a noite ou em um mês, dois meses”, confessou. Agora, depois que ocorre a aceitação, segundo Mirella, se torna mais tranquilo viver a ponto de esquecer que tem a deficiência.


“Uma das grandes barreiras que a pessoa com deficiência enfrenta para caminhar para a aceitação e lidar com esta condição é tentar enxergar a condição que ela tem como uma possibilidade, um potencial de transformação do universo ao redor dela. Isso é muito importante e muito difícil para uma pessoa com deficiência perceber que ela tem essa chance. Ela não enxerga esta possibilidade e ela não consegue perceber a responsabilidade que ela pode adotar para ela mesma”, complementou Rafael, que diz que não passou pelo processo de aceitação por ter nascido com a limitação para se locomover.

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