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Coma chocolate e ganhe um Nobel



O gráfico do estudo que liga consumo de chocolate a países com muitos prêmios Nobel (Fonte: NEJM)
SAIU ONTEM NO aclamado periódico científico “New England Journal of Medicine” e já está virando meme na internet uma pesquisa que relaciona o número de prêmios Nobel de um país com seu consumo de chocolate per capita.
estudo, que exibe um delicioso gráfico sugerindo uma função linear onde se encaixam diversos países, indica que quanto mais chocolate uma nação come, mais gênios da ciência, literatura, política e economia ela abriga.
O trabalho propõe até mesmo uma hipótese para explicar a correlação. Os flavonoides, substâncias antioxidantes presentes no cacau, ampliam as capacidades cognitivas e ajudam a combater a manifestação precoce de demências. Logo, o consumo de chocolate faria a chance de um indivíduo ser laureado com o Nobel aumentar proporcionalmente.
Assinado pelo médico Franz Messerli, professor da Universidade Columbia, de Nova York, o trabalho parece ser na verdade uma crítica em forma de sátira, e imediatamente se tornou candidato ao Prêmio Ig Nobel. O estudo tem falhas óbvias de metodologia e certamente não seria aceito em um periódico científico de renome se não fosse para fazer piada.
O trabalho não incluiu, por exemplo, dados para o controle de influências externas sobre a incrível correlação. A suspeita mais óbvia é que a renda per capita faça crescer tanto a escolaridade média quanto o consumo de chocolate num país. Isso derrubaria a tese de que é a iguaria de cacau que alimenta o gênio dos ganhadores do Nobel.
Ainda não li manifestações dos editores do “New England Journal” sobre a publicação do estudo, mas suponho que ele seja uma espécie de protesto cômico contra uma situação trágica: a proliferação de trabalhos desimportantes na literatura médica, regurgitando correlações entre tudo o que se possa imaginar sem oferecer hipóteses coerentes.
Até mesmo um estudo com uma sugestão vaga de que o chocolate emagrece já foi publicado. Trabalhos médicos que relacionam o consumo de qualquer coisa à incidência de cânceres são publicados em escala industrial, muitos deles sem ter controle nem correlação significativa, e acabam virando notícia.
Mas, enfim, para não terminar o post em clima de “piada em debate”, traduzo abaixo alguns dos melhores trechos do estudo de Messerli:

*

“Um aumento do desempenho cognitivo com extratos de polifenóis de cacau já foi relatado em ratos da linhagem Wistar-Unilever.”
“Que eu saiba, não existem dados publicados sobre a função cognitiva de nações. É concebível, porém, que o número total de prêmios Nobel per capita possa servir como um marcador indireto.”
“O único número possivelmente fora da curva no gráfico 1 é a Suécia [que não consome muito chocolate, mas ganha muitos prêmios Nobel]. (…) É impossível evitar pensar que o Comitê do Nobel em Estocolmo tem algum viés patriótico inerente quando avalia candidatos. Ou, talvez, os suecos sejam particularmente sensíveis aos efeitos do chocolate.”
“Uma segunda hipótese, a causalidade reversa —ou seja, que um desempenho cognitivo maior estimule o consumo de chocolate— deve ser considerada. (…) Parece improvável, porém, que o anúncio de um prêmio Nobel em si aumente o consumo de chocolate em um país inteiro.”
“Os dados presentes são baseados em médias de países, e o consumo específico de chocolate entre indivíduos ganhadores do Nobel no passado e no presente permanece desconhecido.”

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