Aulões não atraem alunos da rede estadual de ensino

Metro1
Que triste... os "grandes mestres", "professores de ponta" não conseguiram atrair a atenção dos alunos? Como é possível isso? Eles que são quase imortais... Acho que esse assunto deveria ser mais bem explorado. Afinal, 1,6 milhão foram para o ralo, mais uma vez.
Como venho afirmando, há muito tempo, o grande problema não é dinheiro; ao menos a falta do mesmo. Aparentemente, dinheiro só falta quando o assunto é remunerar melhor o profissional de educação.
O governo toma decisões equivocadas, se não propositalmente, ao menos por grande falta de responsabilidade. Toma as decisões e depois joga sobre os professores a responsabilidade pelos resultados pífios.


Aulões não atraem alunos da rede estadual de ensino

Tentativa de reparar a greve dos professores é frustrada

Adalton dos Anjos e Clarissa Pacheco - Jornal da Metrópole
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Aulões não atraem alunos da rede estadual de ensino
Foto: Metropress
Mais de 200 adolescentes cheios de energia e com os hormônios à flor da pele são concentrados em um mesmo espaço para uma mega-aula com "professores de ponta". Sobram risadas, gritos e a sensação é que todos estão em um estádio de futebol ou em um show de música. O professor até tenta atrair a atenção da multidão e conseguir o silêncio necessário para iniciar a explicação, mas ele não consegue. Foi neste cenário bagunçado que aconteceu mais um aulão para a rede estadual, visando ao Enem, no último sábado (1º), no Colégio Estadual Ministro Aliomar Baleeiro. 

A empresa Abais Conteúdos Educativos e Produção Cultural foi contratada pelo governo por um polêmico valor de R$ 1,6 milhão para promover as 384 aulas e reparar os 115 dias da greve dos professores da rede estadual. Mas o resultado do início da reposição é um número de cadeiras vazias bem maior do que de ocupadas, e queixas dos alunos, que saem esgotados de tanto conteúdo em tão pouco tempo.

Sem público, o governo toma ações não planejadas anteriormente, como a recente abertura de vagas para ex-alunos e estudantes da Educação de Jovens e Adultos e a mudança de polos de aulas do Cabula, no Colégio Favo, para o Colégio Estadual Ministro Aliomar Baleeiro. Só que o Jornal da Metrópole constatou essa semana que as ações não surtiram efeito, já que as aulas no Cabula terminaram com cerca de 40 alunos, apesar de ter começado com 200. Na Ribeira, no Colégio da Polícia Militar (CPM), até o final da tarde, não havia mais do que 50 estudantes.

Método falho

Foram escolhidos 32 temas das mais diversas disciplinas para serem discutidos nos 16 encontros. Com tão pouco tempo, as aulas parecem muito mais uma revisão daquilo que (não) foi visto na sala do que uma aula aprofundada sobre os assuntos. Tudo é visto de forma superficial, e é comum ouvir, durante as aulas, frases dos professores como "vocês já devem ter visto...". Curiosamente, sempre onde o Jornal da Metrópole esteve, tais comentários dos mestres foram seguidos por risadas dos alunos que ficaram 115 dias sem aulas por conta da greve.

Para o professor da UNB e ex-consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Célio da Cunha, aulas em grandes auditórios não têm a mesma eficiência. "Um grande princípio do processo de aprendizagem é a organização de conteúdo. Isso só é possível em salas com 20 ou 30 alunos, no máximo", diz. 

Quanto maior o número de alunos, mais fácil é a dispersão dos jovens. Durante o aulão no CPM, dois estudantes pouco se preocupavam com a aula sobre mudanças climáticas. A meta da dupla era acomodar o celular em uma posição confortável para que pudessem assistir ao jogo entre Vitória e América-RN, pela Série B do Campeonato Brasileiro. 

Aulas cansativas

Os poucos 'sobreviventes' das aulas carregadas de conteúdo saem completamente esgotados e nem os mais disciplinados conseguem manter a concentração até o final. "A primeira aula foi divertida, mas a segunda foi muito cansativa. Tinha muito assunto", reclama Clarissa Lira, do Colégio Estadual Ministro Aliomar Baleeiro, em Pernambués, após uma tarde de aulão.

Clarissa e sua colega Adriane Lira foram pela primeira vez ao aulão oferecido pelo governo porque ele estava sendo realizado na escola delas. Para as estudantes, a ausência nas outras edições do aulão tem como motivo a distância de casa até o local das aulas. "Iam mandar um ônibus para levar os alunos da escola, mas não mandaram porque os alunos não se interessaram", explica Adriane.

SEC "cumpre meta"

A estudante Priscila Borges, do Colégio Estadual Rotary, em Itapuã, foi bem clara quando perguntada sobre a ausência nos aulões do Enem. "A gente não foi porque não quis", afirma, explicando que não houve incentivos por parte da escola para que os alunos frequentassem os aulões.

A desmotivação da estudante não é algo isolado e está diretamente ligada à postura da Secretaria de Educação sobre os aulões. A assessoria de imprensa da SEC informou que a meta era "ofertar os aulões para todos os concluintes do ensino médio e por isso utilizou várias estratégias para que o conteúdo chegue aos estudantes". O órgão, porém, não usou as "várias estratégias" para que os estudantes busquem e assimilem o conteúdo.

Choque de horários

A Secretaria de Educação do Estado (SEC) informou que ampliou o público nos aulões do Enem para ex-alunos e estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) de Salvador para "atender aos pedidos" dos estudantes. Ainda segundo o órgão, a previsão é que os 132.428 alunos matriculados no 3º ano no estado assistam as aulas presencialmente, por videoconferência ou no Portal da Educação. 

Questionada sobre o choque de horários entre os aulões e as aulas de reposição, a SEC informou que os estudantes devem se inscrever em um turno diferente do qual frequenta as aulas regulares, já que "os aulões não substituem o dia letivo".

Quanto à mudança no polo de aulas na região do Cabula do Colégio Favo para o Colégio Estadual Ministro Aliomar Baleeiro, a SEC informou que a maioria dos aulões só poderiam acontecer aos domingos, quando a procura dos estudantes era baixa. Com a alteração das aulas de preparação para o Enem para o colégio, o órgão economizou a verba do aluguel e garantiu o público da escola.

"Nada compensa a greve"

Durante a tarde de estreia dos aulões do Enem no Colégio Estadual Aliomar Baleeiro no último sábado (1º), era constante a saída dos alunos do auditório pelos mais diferentes motivos. Alguns deles chegavam a admitir que foram para a escola apenas para assinar a lista de presença. "O pessoal achou que a aula era na sala de aula, por isso se desinteressaram e foram embora", explica a estudante Clarissa Lira. 

Para o consultor Célio da Cunha, nada compensa a ida dos alunos para as aulas em um ano letivo. "A alternativa é válida para compensar a greve, mas nada compensa a presença na sala de aula", afirma o professor. Célio ainda criticou o tempo perdido entre os professores em greve e o governo do Estado para negociar o retorno para as salas de aulas. "De fato, temos que pensar é em como melhorar a carreira do professor e evitar essas greves. Isso prejudica o processo educativo", conclui.

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