Folha de S.Paulo - Equilíbrio e Saúde - Vítimas da droga talidomida dizem que pedido de desculpa é insuficiente - 01/09/2012


Vítimas da droga talidomida dizem que pedido de desculpa é insuficiente

DA REUTERS

As vítimas da talidomida, medicamento que causou defeitos congênitos em milhares de bebês no mundo todo, disseram neste sábado que o pedido de desculpas do fabricante alemão é insuficiente e tardio.
O medicamento, desenvolvido pela empresa alemã Gruenenthal, foi vendido para mulheres grávidas do mundo todo, no fim dos anos 50 e começo dos anos 60, como um tratamento para o enjoo matinal. Cerca de 10 mil crianças nasceram com defeitos causados pela droga, a maioria com má formação nos membros ou sem braços ou pernas.
"Tentei lembrá-los do seu comportamento criminoso em várias ocasiões, não acho que essa empresa algum dia fará a coisa certa", disse Geoff Adams-Spink, vítima britânica da talidomida.
"Este é um primeiro passo importante. O próximo é compensar todos os que foram afetados pela sua então chamada droga 'totalmente inofensiva'," disse Adams-Spink, que lidera o European Dysmelia Reference Information Centre, um grupo de apoio para pessoas com malformações atribuídas à talidomida e outras causas.
A Gruenenthal, que diz ter pago às vítimas cerca de 500 milhões de euros (R$ 1,28 bilhão) até 2010, inaugurou uma estátua comemorativa na sexta-feira. Na cerimônia, o presidente da empresa, Harald Stock, disse que a empresa sentia muito pelo que aconteceu com as vítimas.
"Em nome da Gruenenthal, quero aproveitar essa oportunidade para expressar o nosso profundo pesar pelas consequências causadas pelo Contergan e a nossa profunda solidariedade às vítimas, suas mães e famílias", disse Stock na cerimônia na cidade de Stolberg, na Alemanha, onde fica a sede da empresa.
CHOQUE SILENCIOSO
"Nós também pedimos perdão por não termos entrado em contato direto com vocês durante quase 50 anos. Pedimos que vocês entendam o nosso silêncio como um sinal do enorme choque que sofremos pelo o que aconteceu com vocês".
Milhares de vítimas da Talidomida, vendida na Alemanha com o nome de Contergan e no resto do mundo como Distaval ainda estão vivas.
Não foi possível fazer contato com a Gruenenthal para comentar o assunto e não ficou claro se os 500 milhões de euros foram pagos para vítimas apenas na Alemanha ou também no exterior, onde outras empresas também comercializaram a droga.
As vítimas alemãs da talidomida recebem uma pensão mensal de até 1.116 euros de um fundo para o qual a Gruenenthal contribui.
Uma australiana, cuja filha fez um acordo multimilionário em julho com a Diageo Plc, sucessora legal do distribuidor australiano da Talidomida, disse que o pedido de desculpas era um insulto.
"É o tipo de desculpas que você dá quando não está realmente se sentindo culpado", disse Wendy Rowe à Australian Broadcasting Corporation. Lynette Rowe, hoje com 50 anos, nasceu sem braços e pernas depois que sua mãe tomou Talidomida por um mês, durante a gravidez. Seus advogados disseram que a Gruenenthal não contribuiu para o acordo.
Falando sobre a declaração de Stock de "choque silencioso", Wendy Rowe disse: "Nossa família não poderia entrar em 'choque silencioso'. Tivemos que enfrentar a situação e viver dia após dia com o incrível dano que a droga da Greunenthal fez à Lyn e à nossa família".
O escândalo da Talidomida provocou uma revisão mundial no sistema de teste de drogas e aumentou a reputação da US Food and Drug Administration --o FDA, órgão que controla a liberação de medicamentos e alimentos dos EUA, que se recusou a aprovar a droga.
Muitas vítimas alemãs da Talidomida deixaram de comparecer à inauguração da estátua, que mostra uma criança com braços mais curtos, dizendo que isso não passava de uma ação de relações públicas.
Harold Evans, editor da Reuters que liderou a campanha pela compensação das vítimas da Talidomida quando foi editor do "Sunday Times" a partir do fim dos anos 60, disse que a justiça atrasada significava a justiça negada.
"Cinquenta anos de injustiça não podem ser apagados com um pedido de desculpas, por mais sincero que seja, se ele não vem acompanhado de uma compensação pela dor e sofrimento que milhares de sobreviventes vivem diariamente", ele disse.

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