Hoje, valeu a pena.

Saudações, queridos.
Tenho feito desse espaço uma forma de me expor. Porque de fato, nada tenho a esconder.
Sou professor desde agosto de 1992. 17 de agosto de 1992 para ser mais exato.
Naquele ano, fui contratato para trabalhar numa escola, num pré-vestibular. Era também um curso preparatório para alunos que queriam ser universitários, e para estudantes que desejavam apenas ter o ensino médio e ensino fundamental I. Naquele tempo essas instância eram chamadas de primeiro grau e segundo.
Eu havia entrado na faculdade naquele mesmo ano.
Lembro-me que já contava com 19 anos. E estava preocupado. Meu pai, pedreiro, trabalhava em São Paulo. Eu tinha um único tênis. que lavava todo final de semana e na quarta-feira. Era sagrado esse comportamento. Minha mãe nunca precisou mandar que eu o fizesse. Surrado, encontrava-se rasgado nas lasterais. Meu pai quiz comprar outro novo, mas eu, com 18-19 anos e orgulhoso julgava que não devia aceitar, e esperava o momento certo para, com recursos próprios adquirir um. O problema era que esse tempo se prolongava, a sola do tênis já fina igual folha de seda, me preocupava: orgulho descalso, não seria tão prático.
Numa certa tarde, estava em casa, triste e preocupado. Precisava dinheiro urgente e continuidade nesse dinheiro. Eu fazia alguns bicos, e isso é claro não sustenta ninguém.
Cheguei em csa, Orei por duas horas seguidas. Lembro-me como hj: entrei no quarto, abri meu coração a Deus falando de minhas preocupações e medos. Minhas expectativas, meus desejos. Falei da necessidade de um emprego. Lembro-me que as 17:10 entrei no quarto. Dia seguinte, 17:10, apertava a mão do meu primeiro patrão. No segundo mes de trabalho eu comprei meu primeiro tênis. E abri uma conta bancária. Esse tênis durou exatos 6 meses, aí comprei outro melhorzinho.
Tenho essa conta até o dia de hoje.
Em 2001, após concluir a faculdade, exatos 29 dias de formado, fui chamado para trabalhar para o Estado. Casei em 2003, hj moro em Salvador.
Perceba que eu já estava aprovado em dois concursos havia dois anos, mas eu não podia assumir simplesmente pela falta do diploma. Num deles, o segundo, eu fui o segundo colocado.
Eu tenho dois cadastros desde então, me sindicalizei.
Nos primeiros 6 meses, trabalhei como professor sem receber um único centavo do Estado. E de um deles, o Estado simplesmente cancelou minhas atividades anteriores, como se eu fosse um professor temporário. Ou seja, tem 6 meses da minha vida funcional que me foi roubado.
Passei altos e baixos:fiz tres cursos no Estado, deles apenas 1 me deu algum valor percentual.
Venho trabalhando como voluntário na Fiocruz, empresa do Governo Federal. Lá entrei por que consegui demonstrar alguma competencia como professor.
Não raro, na miha carreira, tenho alunos que se queixam. Julgam que minha metodologia é inútil e produz poucos resutados. E de fato, não há muito a produzir quando os que são colocados sob ela simplesmente se recusam a trabalhar comigo.
Mas não é esse o motivo de minha discussão hoje.
Como já relatei, extensamente, sofri um uma tromboebolia pulmonar, ocasionado por uma trombose, de origem venosa. Essa por sua vez, causada por uma doença auto imune  chamada sindrome do anticorpo fosfolipídico.
Segundo os médiscos que me atenderam, é mais fácil ganhar duas vezes, sozinho na Megassena que sofrer tal doença e ainda sobreviver. Se bem que eu gostaria de ganhar os 31 milhões que serão  sorteados hoje, ainda assim, sou um homem de bastante sorte, considerando esse quadro.
Tenho pensado muito em minha vida. Nas expectativas frustradas. Nos desejos não realizados, e na falta de força para fazelos cumprir. Não me falta fé. Mas, ao contrário do que pensam as pessoas, nem sempre a nossa fé é contempleda. Simplesmente, por maior que seja nossa fé, Deus nos diz "não".
Hoje fui ao Shopping Iguatemi. Lá, após meu almoço, precisei ir ao banheiro, e lá fui abordado por um jovem que trabalha na limpeza. Ele me perguntou o nome e a minha profissão, ao que respondi. "eu fui seu aluno na 7ª série" Isso em 2007! Ele estudava em Paripe. Minha primeira escola em Salvador.
Ele me agradeceu pelo tempo que fui seu professor e pelo que ensinei. Confesso fiquei emocionado. Em meio aos meus problemas atuais com meus alunos, e colegas, e expectativas, e frustrações, a gratidão daquele moço me comoveu. Na verdade, eu é que sou grato a ele e aos seus colegas, pois foi uma turma muito agradável de trabalhar. Alunos participativos, empolgados, entusiastas. Nunca me receberam em sala com cara feia, nem com murmurações, e sempre fizeram as tarefas propostas. Fizemos muitas discussões, e eles ampliaram bastante as opiniões, com depoimentos e contribuições diversas.
Fiz apenas meu trabalho. Fico feliz em ver que ele é um elemento util a sociedade. Espero que consiga alçar vôos mais altos. Faculdade, Mestrado, doutorado... quem sabe produzir conhecimento. Constituir família, ter um nome honrado entre os seus.
Falamos de algumas de suas colegas. Suas ótimas colegas.
Considerando as condições insalubres da escola (bem precárias mesmo), e da direção que em nada ajudava no relaciomento entre colegas, entre professores-alunos e trazendo para atmosfera de trabalho um ambiente de desajuste emocional, além do já citado desajuste físico e ambiente; percebe-e que o diferencial é realmente o querer. De alunos e professores. Aqueles tinham professores muito bons. Muito ricos. E os meninos, esses da sétima sabiam aproveitar. Pena naquele momento eu não registrar minhas atividades com o mesmo cuidado que hoje uso. Entretanto, trago na memário bons momentos daquele pessoal, que gostaria de poder rever. Tenho algumas fotos, poucas e muito mal feitas. Mas principalmente, tenho a lembrança de uma turma com a qual trabalhei e sei que fiz um bom trabalho.
Hoje tenho alunos que simplesmente estão se perguntando porque entre tantas boas pessoas no mundo justo eu fui sobreviver a um evento como esse. Me pergunto a mesma coisa. Há quem diga que tenho uma missão a cumprir...
Todos temos. Bons ou maus. Como afirma a Bíblia, até o ímpio foi preparado para o dia do mau.
Fiquei profundamente emocionado com a atitude daquele jovem, que poderia simplesmente passar por mim, e mesmo me reconhecendo, me ignorar. Eu mesmo não o reconheci.
Que Deus abençoe meus alunos presentes e futuros. E complete a medida do que deixei em falta aos que foram meus alunos. Sinceramente, que sejam felizes, homens e mulheres de bem. Alegres, livres, produtivos. E no momento presente sejam gratos aos que os ajudaram a chegar até aqui. Mais: que com suas atitutes, honrem seus pais e mestres. Que os abençoe em palavras, e atos. E hoje, nas suas orações lembrem-se de nossa luta. Ela não é apenas por salário. Professor que ganha bem, trabalha bem. Lê mais, ouve melhor, gasta mais tempo com seus alunos, com suas atividades dirigidas aos seus alunos.
Entendam que são nossos filhos que estão sem pão nesse momento. Enquanto lutamos por um acordo que foi assinado. Que adianta fazer  novo acordo com quem não sabe honrar aqueles com que já se comprometeu?
Pensem nisso, e apoiem a luta dos Professores públicos.
Tão logo eu consiga achar, eu posto algumas das fotos tiradas naquela época.
Forte abraço para vcs, e que tudo esteja indo bem.

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