Metáforas: uma forma esplêndida de entender a vida



Coalhada
Quem me conhece de perto, sabe que gosto de uma boa prosa. Contar causos, contar e rir de uma boa piada.
Há quem julgue, equivocadamente, que sou pedante. Talvez em muitos momentos eu seja, e tenha mesmo que reconhece-lo. Mas, como diria a máxima popularizada por Chico Anísio (que Deus o tenha), através do craque Coalhada “eu sou, mas quem não é?”
Entretanto, quem tem coragem para passar por esse verniz, se oportunizar aproximar-se de mim um pouco mais, vai perceber, sem fazer grande esforço, que sou mais para o populacho que para a burguesia.
Bom, essa semana pensava em várias metáforas e histórias que ouvíamos quando criança. Contos de fadas, da carochinha, dos irmãos Grimm, Esopo, La Fontaine, Jesus Cristo... fontes de parábolas, fábulas e histórias que nos fizeram dormir, e que ouvíamos atentos por horas, com uma atenção que chocava nossos pais, ao menor sinal de mudança, por mais sutil que fosse.
Amávamos ouvi-las. Mas, poucos de nós as entendemos com a seriedade e profundidade de informações que elas transmitiam. Numa época onde a geração mais antiga, os pais, passavam a sua experiência de vida, quase como uma forma inquestionável de se viver; essas histórias tinham por função conduzir os jovens à maturidade, incutindo de uma forma didática e atraente, para os ainda muito jovens, valores como paciência, sabedoria, tolerância, saber ouvir, saber calar... e tantas outras coisas. Hoje essa função não parece tão possível aos pais, porque o tempo de permanência nos lares é cada vez menor e cada vez mais os pais estão fora garantindo a sobrevivência (e tablets, e celulares com 200 chips, notebooks cada vez mais potentes...), e porque a televisão, de alguma maneira, passa a ser a “educadora”, ou “transmissora” desses valores.
Essa semana, uma ex-aluna postou no seu facebook, que ela estava cansada de pedir príncipe e receber cavalos. Eu também já tive 16, 17 anos. Sei a angústia da espera do amor. De se sentir desejado e querido... num telefonema, num gesto de carinho, num toque... e sejamos sinceros (porque eu lembro que sofria isso quando mais jovem, embora os pais dos meus alunos se esqueçam que já passaram por isso também), com o toque mais íntimo, com aquela pessoa que, julgamos, seja a pessoa de nossa vida, com a qual compartilharemos nossos sonhos, vida, frustrações, ideiais... para o qual nosso corpo será a fonte de desejo e prazer, e do qual saciaremos a nossa própria necessidade de sentir prazer.
Com a vida moderna, com a quebra de tabus, valores expostos, tempos diferentes... mesmo assim; ainda ansiamos esse sentimento de pertencimento. Precisamos achar nosso lugar no coração, na vida, nas prioridades do outro. Não por vaidade. Mas porque nos faz bem saber que somos competentes em fazer alguém feliz nesse mundo, e que para essa mesma pessoa, somos igualmente fonte de alegrias.
Meninos e meninas, e pais desses... eu há 20 anos, com dezenove, achava que ia demorar uma eternidade e meia para achar essa pessoa. Hoje tenho certeza que ela não existe.
Minha santa esposa que me suporta, e do jeito dela, me ama, me perdoe se puder. Eu tenho certeza, hoje, que também não sou exatamente o último romântico, como diz Lulu Santos; nem desse, e nem de qualquer outro litoral.
É que pessoas ideais são como os gases perfeitos que estudamos em Química. Só existem nos modelos teóricos. Não existe força de atrito perfeitamente nula dentro dessa esfera chamada Terra. Não existem pais, mães, maridos, filhos, namorados, namoradas ideais. Existem pessoas reais. E sabemos disso!
Existe uma metáfora antiga que foi relançada em desenho animado pela Disney, que fala da princesa e o sapo... e na história, para ter o príncipe ela tem de beijar o sapo.
Para ela ser elevada à princesa, salvar o príncipe, sentir o amor pleno, ela precisa deixar de lado seus próprios preconceitos, nojos, vergonhas. O príncipe precisa mudar de atitude também... precisa ser responsável e descobrir os seus sentimentos em relação à plebeia pobre, mas de coração ímpar. Ambos precisam um do outro, para se amparar, se salvar. Se amar exige sacrifícios. Na história, basta um beijo. Na vida real, a coisa é mais complicada, pois exige cotidianamente esse investimento.
O amor não se esgota num dia, num mês, num ano... desde que alimentado como planta (outra metáfora?).
Sabe aquele bilhete, deixado embaixo do travesseiro, com uma frase boba... "saí pensando em você". Ou aquele telefonema que se recebe no meio da manhã com uma palavra doce igualmente tola "liguei só para ouvir a sua voz... diz que me ama?!"
Aquele abraço dado, sem pretensão de nada receber, apenas de oferecer.
Conheci uma senhora que casou-se, aos 52 anos. Para o marido, ela já era a terceira. O sujeito era grosso e bem rude, mas ela casou mesmo assim. Poucas semanas depois, arrependida disse que teria sido melhor continuar solteira pois com esta condição era feliz, muito mais que na nova condição. Talvez fosse verdade. Infelizmente.
Mas eu não acredito que casamento seja loteria, tanto quanto, que as pessoas precisam esperar passivamente. Como disse Newton na Física, e isso vale para tudo o mais na vida, o Universo tende a manter seu estado de inércia. Ou seja, as coisas não mudam per si. Precisam ser mudadas. E para isso é preciso empregar força.
Para os religiosos, oração e paciência. Mas atenção, objetivos traçados, conversa franca, audição atenta, percepção do que ocorre consigo mesmo e com o outro, podem fazer grande diferença ao final.
Sem querer me delongar sobre essa questão em particular, relativa ao desejo dos jovens de se sentir próximos a alguém que consideram especial, algo aprendi, ainda cedo. Que tenho a oferecer ao outro? Explico... no corredor à frente do qual se encontra o quarto onde ora estou, lá ao final dele, há um portuga, do qual já falei em outra postagem.
A esposa dele sofre de Alzheimer. Ela não se reconhece, quanto mais a ele. Eles tem mais tempo de casados que eu tenho de vida. Mas ele está lá agora, do lado dela, cuidando, amparando. Mesmo não sendo reconhecido por ela. Vi o carinho com que ele afaga o cabelo dela, e arruma as pontas, porque ele sabe que se ela estivesse em plena capacidade mental, iria querer se apresentar bela. Até as funcionárias do hospital dispensam um cuidado diferenciado nesse aspecto para ela.
E ela nem o reconhece. Ele disse "como poderia? Ela casou com um homem jovem, forte, bonito. E agora ela vê essa uva passa diante dela!" Isso é amor! Puro, verdadeiro.
Ele não desistiu dela. E continua “beijando a sapa”, mesmo sabendo que ele mesmo não será mais príncipe.
Quando minha beleza (agora é irônia mesmo!) se forem, e um dia ela se vai (vai acontecer com todos!), e o desejo sexual não for tão intenso, e a barriga crescer, e a flacidez chegar ao corpo... e a doença, de onde virá forças para que se esteja junto? Não por obrigação, mas porque não se pode pensar em nada mais importante a fazer nessa vida. Soube de Linus Pauling, um químico americano, que conheceu aquela que seria sua esposa por anos, numa aula de Química. Ele estava dando a primeira aula da vida dele, e perguntou o que que alguém poderia falar sobre a amônia. Uma aluna no fundo da sala se levantou falou algo... casaram-se pouco tempo depois, ele tinha 23 anos nessa época e morreu com mais de 90. E, dizem, sempre apaixonado por ela. Como isso é possível, senão por uma vontade férrea de permanecer junto.
Uma mulher brigou com o marido, estava magoada. Enquanto arrumava as malas, esbravejava "voltarei à casa de meus pais, lá serei feliz". Ele responde, pegando as malas dele "Você tem razão, se corrermos, chegamos ainda pelo dia". Ele não estava afim de abrir mão dela. E sabia que precisava reconquista-la. Lembra aquela planta que precisa ser aguada diariamente? Ele andou deixando ela meio seca, mas estava disposto a salva-la, porque sabia que precisava dela, tanto quanto ela precisava dele.
Tenho passado tempo demais pensando nos meus erros, no meu passado recente, e mais antigo. Erros. Não me dei o direito de ser humano. E errar. Mas errei tantas vezes. E sabe de uma coisa? Isso é aliviar-se de uma bagagem terrível! Porque, embora não tenhamos vindo ao mundo para errar, também não viemos para sofrer. Fomos criados para a vida em sua plenitude. E se essa plenitude permitir o erro, que aprendamos com ele, e tenhamos coragem de não repeti-lo. Isso Jesus nos ensinou bem, pois a todos que encontrava e se dava a chance de conhece-lo ele simplesmente repetia “Vá, e não peques mais”. Mas, ele sabia que pecaríamos ainda, e com os mesmos erros as vezes. Complexo? Vamos a duas situações...
Lembra quando um homem paralisado foi baixado pelo telhado por seus amigos até dentro da casa onde Jesus estava? Seria fácil Jesus sair, ou de lá de dentro mesmo resolver a situação, com a mesma ordem. Mas o fato é que o homem se sentia tão culpado, tão cheio de acusações em seu interior que ficou paralítico. Jesus perdoa seus pecados, declarando-o perdoado. Os pecados não foram revelados. Talvez não fosse importante saber quais eram. Talvez, o homem precisava apenas ouvir o que ouviu, porque o Pai Celeste já o havia perdoado. Mas ele mesmo, não se perdoava. Por isso, ele e outros precisavam ouvir: “vá e não peques mais”.
Agora que quase morri de trombose, penso como teria sido diferente ser apenas o que sou: um homem, com grandes falhas, mas com grandes potenciais também. Não sou apenas erros, não apenas os cometi. Fiz coisas boas também. Olho para minha filha e vejo que ela é uma pessoa melhor que eu. Foi o que de mais belo fiz na vida. Quando ela nasceu, quase ouvi um anjo dizer: "Deus manda te dizer que o seu perdão veio na forma de Sara". Sara... princesa... e eu sou o súdito mais fiel.
Jesus contou uma parábola sobre um judeu que, deixado Jerusalém desceu e no caminho foi agredido quase morrendo (Lucas 10:25-37). Os homens que poderiam ajuda-lo se recusaram a faze-lo porque estavam presos em suas próprias orientações religiosas, emocionais, irracionais e insensíveis à necessidade de um igual. Entretanto, a ajuda veio da parte do homem de quem ele nunca poderia esperar ajuda: um samaritano.
Perceba que o samaritano, desceu do seu conforto, cuidou das feridas do corpo, com vinho (limpeza) e com azeite (cura). Deixou o homem num hotel, pagando as despesas imediatas, e deixando pagas as futuras. E o que o samaritano recebeu em troca? Continuou sendo desprezado por sua vida afora...
Alguém duvida disso? É só prestar atenção que Jesus pergunta: Quem se colocou como próximo? E o sacerdote fala "aquele que usou de misericórdia". O sacerdote, não disse o samaritano... porque reconhecer que um samaritano podia ser mais humano que um judeu, não se enquadra nos projeto de vida do judeu. Curioso, Jesus apenas diz, vai e faze o mesmo! Na parábola do Samaritano, Jesus é o próprio samaritano. Veja que na estalagem, ele deixa o moribundo (nós), paga a conta do homem (Jesus morreu pagando nossas dívidas para com Deus), deixa pagas contas posteriores, e se compromete a pagar TODAS as contas futuras, quando ele retornar. Ele, Jesus, sabe que somos falhos, e pecaremos. E que antes mesmo de pecar contra o próximo, ou contra Deus, estaremos na verdade nos mutilando, nos machucando... parábola linda, não...?
Jesus não o condena, mas o estimula... entende a imitação daquele pobre homem. Aliás, a limitação de todos naquela história: o levita, o sacerdote, e o saduceu para quem a história foi dirigida. No fundo ele é vítima de si mesmo e nem percebe. Todos somos. De nossos preconceitos, julgamentos, avaliações equivocadas.
Cremos num mundo ideal. Nele, as pessoas apresentam determinados comportamentos, e atitudes, e pensamentos que sabemos, nós mesmos não temos. Ou seja... nós não cabemos no mundo ideal que criamos. Por isso, precisamos morrer e nos libertar de nosso corpo imperfeito. Se algo ruim nos ocorre, pensamos que o diabo está nos perseguindo (porque somos bons demais), ou que Deus está nos punindo (porque não somos bons o bastante, ou estamos em pecado). É verdade que tanto um quanto o outro podem ocorrer. Mas também é certo que apenas e tão somente as coisas ruins sejam fruto desse pacote chamado vida que recebemos. Nele temos coisas boas, e coisas ruins. Alguns vão enterrar seus pais. Alguns serão enterrados por eles. É pacote diferenciado. Uns vão ganhar na loteria, e vão fazer coisas maravilhosas, para si e para outros. Alguns vão ganhar na loteria e pouco depois ficarão mais pobres que antes, e solitários. É a vida.
Por isso, novamente recomendo, amem-se, cuidem-se (de suas mentes, corações, corpos e alma). Digam aos seus entes queridos exatamente isso; que eles são queridos. Compreendam suas ausências... as suas próprias e as de seus entes. Como bem disse um outro poeta, cheio de metáforas "são crianças, como você".
Aproveitem bem a noite. Saudades de vocês todos. Estou confinado nesse quarto sem permissão para sair, para evitar risco de queda.
Em tempo: vou domingo telefonar para minha mãe sim... mas querida deixar aqui por escrito, que a amo. E até hoje eu não sei retribuir o que dela recebi. Sei que ela muitas vezes me magoou, e faltou para comigo. Mas tudo bem, porque ela só podia fazer o melhor dela. Não o melhor que eu queria. E provavelmente eu nem merecesse. 
Obrigado mãe, por tudo mesmo. E me perdoe, pelo homem que me tornei. Pelo silêncio, e pelas vezes em que falou sem parar... meus ouvidos doem até hoje, só de pensar em algumas dessas. 
Dizem que Dilma foi considerada a segunda mãe mais influente do mundo, a Hilare a mais influente. Acho que há algo errado nessa pesquisa.
Com certeza não conhecem dona Durvalice, e nem dona Célia Carla... primeira e segunda mães mais influentes do mundo. Ou alguém duvida de minha capacidade de avaliar esse assunto?
Abraços fraternos.
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