Professores ou babás? Formação e salário.

Há muito tempo discutimos questões sobre a educação, mas a sociedade parece indiferente e insensível aos fatos.
De forma semelhante, a capacidade de avaliar os fatos, mostra uma total incapacidade de análise e coerente discussão.
Como o tema é dinâmico e revela várias faces, levantaremos apenas algumas para discutir. Longe de querer esgotar o tema (o que não é possível, ao menos nesse blog), queremos é trazer novos elementos à luz das discussões.
Uma das questões que o governo traz é que educação é cara, os professores são mal preparados, o índice de reprovação é muito alto e o custo da depredação das escolas torna o sistema quase deficitário. Pequena verdade... grande manipulação. Quase todo professor tem consciência que sua formação é insuficiente. Mas qual profissional nesse planeta tem formação bastante, seja qual for a área? É cientificamente provado que a formação continuada, por mais detalhada que seja é humanamente insuficiente. Mas nenhuma profissional de educação que eu conheço (e em 19 anos, creio que fiz vários colegas, de forma direta ou indireta), está satisfeito com sua insuficiente formação. Mas por falta de tempo e de financiamento se vê incapaz de resolver tal condição.
Nessa questão, vou puxar a sardinha para minha brasa: se eu tivesse renda para tanto,  iria me matricular numa especialização a cada 2 anos, cursa-la e dar o aproveitamento possível dela. Minha renda não me permite, e nem tenho tempo para me dedicar aos estudos como se convém. Sei que essa é a condição da maioria dos meus colegas. Muitos, ainda dizem que sem o estímulo financeiro possibilitado pela formação adicional, o profissional não se estimula a estudar. Não é verdade. A maioria dos profissionais não estuda por falta dos recursos antes citados...
Se tivessem, estudariam, independente do estímulo posterior em sua conta bancária, embora, em qualquer lugar do mundo, profissionais de qualquer tipo e nível tem seu valor cotado a peso de ouro.
Uma outra questão que se levanta para "justificar" os baixos salários, é o conceito que se tem do papel do educador. Para a grande maioria das pessoas, professores não são profissionais. São sacerdotes... como se sacerdotes não comessem, não precisassem de médico, roupa, carro, ler, se divertir... Na verdade, cremos que o professor não só é um profissional sem qualidade e necessidade, como cremos que sua função e necessidade se dá, meramente, pela necessidade que temos de ficar longe de nossos filhos por aquelas benditas 4 horas em que eles estão na escola.
Se não, vejamos: numa greve, a primeira coisa que as mães dizem é "o que farei com meus filhos em casa?" Sua preocupação na verdade é que aquelas horas de sossego, nos quais os filhos estão longe de casa, por um tempo longo e incerto, não se dará. Os pais tratam do professor como babás, as quais não podem pagar.

Para eles, o valor do professor e do seu trabalho é apenas manter seus filhos entretidos. Poucos veem o trabalho pedagógico coo um investimento no futuro, seu e do seu filho e da humanidade como um todo.
Uma terceira questão é o preconceito. Magistério é exercido, principalmente, por mulheres. E por isso, os salários "justificariam" ser tão baixos.
A idéia de que  professores precisam ler, ouvir boa música, ter tempo para planejar, estudar, inclusive livros, atividades e desenvolve-las; não é tida como investimento, mas um privilégio para um grupo e que não produz nada de palpável para a sociedade.
Eu venho fazendo vídeos de atividades que realizo na escola. Alguns tenho postado nas mídias sociais mais conhecidas. Infelizmente os acessos são poucos, mesmo após muito tempo. Mas vídeos de todo tipo de bobagem, bizarrice, inutilidade rapidamente viram hits com centenas de acessos. Ganham prêmios e repetidamente estão na televisão em diversos programas. E as pessoas aplaudem, se estimulam a ver, e ver, e ver... copiam para seus micros...
Meus alunos gastam horas na internet, em sites de fofoca, baixando vídeos de todo tipo, lendo sobre a vida de personalidades... trocando fofocas, e outras nulidades. Mas ao mandar que façam um trabalho de pesquisa com determinadas características, eles pulam longe. Não sabem operar o micro, a web, nem os aplicativos de escrita e pesquisa... garantem que não tem acesso, nem tempo para ler e escrever.
A maioria absoluta dos meus alunos não apresenta capacidade de escrita,  leitura e interpretação de texto. Pouco conseguem fazer diante de um livro, se alguém não lhes deixar claríssimo a página que devem ler, e exatamente o que devem fazer a partir do lido. Houve uma época em que apenas ler e escrever, bastava. Hoje não basta mais. Precisamos decidir coisas que vão nos acompanhar cotidianamente. 
Ouso usar um exemplo. Nos anos 60,70 e 80, fumar era tido como xique. Uma prática social, útil, prazerosa. As mulheres que o faziam eram tidas como liberadas, emancipadas. a  virilidade masculina era inquestionavelmente superior se praticada por um fumante. Haviam desenhos animados que passavam nas manhãs globais, nos anos 70, 80 e 90 que apresentavam personagens que fumavam. E eram os mocinhos! Não acredita? Veja Os Flintestons, Os Jetsons, e outros...
Na Tailândia, há uma campanha do governo que afirma que fumar torna o parto natural menos sofrido. E é verdade... a criança nasce com o cérebro 20% menos desenvolvido, o que facilita a passagem do bebê. Lá as mães são estimuladas a fumar porque o governo não quer ter despesa com pré-natal, medicamentos, acompanhamento médico e outras "bobagens" do tipo. Numa sociedade industrializada e tecnológica como a nossa, demandas novas são criadas junto com novos produtos. Necessidades são criadas antes mesmo dos produtos serem inventados. E nós embarcamos nessa onda, sem pensar, sem pesquisar. Confiando na propaganda do canal de televisão mais visto e que dita a moda que devemos seguir.
Houve uma época, e ela não está tão distante, que evangélicos eram criticados pelas emissoras de televisão. Condenados pela igreja católica, pela ciência, por ateus e pelos leigos. Hoje eles tem canais de televisão e aparecem em programas próprios, mesmo nas emissoras que antes diziam que era emissora do diabo. 
Perdemos a capacidade de ler, de criticar, de discutir com seriedade, imparcialidade e respeito às diferenças.
E os discursos são espalhados como verdades absolutas, consumidas em doses cavalares. E inquestionáveis. Até que o próximo programa de televisão diga que é tudo verdade, ou mentira.
As pessoas tem preocupações com coisas singulares e complexas, mas das quais podem pouco falar. Problemas climáticos? Violência? Homossexualismo? Palavra de Deus? Religião? Tudo é discutível, e toda verdade é dita por todos, com ou sem conhecimento de causa.
Professores, esses nada sabem, portanto, nada podem dizer sobre nada. São claramente dispensáveis.
Hoje em uma das escolas que trabalho, foi Conselho de Classe. Poucas vezes participei de um conselho tão organizado, apesar das muitas falhas cometidas pelos profissionais que lá estavam, entre eles, eu.
Claro que nenhuma delas comprometeu qualquer dos alunos envolvidos. Ao contrário.
Mas vi pais depois vendo os resultados publicados e chorando. Ouvi um deles dizendo "o professor fulano reprovou meu filho". Dizia isso com uma raiva... um ódio no olhar. eu que nada tinha a ver com a situação (nem conheço o filho dela) fui alvo de seu sentimento... "vocês professores não fazem nada, e depois reprovam os meninos... como aprovam fulaninho e meu filho não passa?"
Nem me dei ao trabalho de responder. Apenas saí.
Se hoje temos esse horror de pessoas violentas, sem trato para com o outro, sem respeito pela vida manifeste-se onde e como se manifeste; isso é porque não tiveram a sua formação feita corretamente. Faltou algo no passado. 
Teremos coragem de fazer essa próxima geração melhor que a nossa? Ou teremos uma nova geração de bárbaros? Nós professores estamos lutando pela melhoria. 

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